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quinta-feira, 25 de junho de 2009

O Kula – Malinowski

    O objeto de estudo de Malinowski é o sistema de comércio, o Kula. Ele cita algumas condições adequadas para o trabalho etnográfico, descritas a seguir.
    O etnógrafo precisa isolar-se de outros brancos e permanecer em contato, o mais íntimo possível com os nativos. É bom estabelecer uma base na residência de um branco, mas deve ser longe o bastante para não se tornar um local de moradia permanente, do qual ele sai, a determinadas horas, para visitar a aldeia.
    Deve-se ficar na aldeia porque há uma grande diferença entre um mergulho esporádico na vida dos nativos e ficar realmente em contato com eles. Para o etnógrafo, significa que ele deixa de ser um elemento perturbador que, com a própria aproximação alterava a vida tribal que pretendia estudar. Viver na aldeia somente com o interesse de acompanhar a vida nativa é como ver a carne e o sangue de sua verdadeira vida, que recobrem o esqueleto das construções abstratas.
    O etnógrafo deve trazer consigo também o maior número de problemas possível e o hábito de formular teorias que possam ser contestadas pelos fatos ou não. Saber enunciar problemas constitui o maior talento de uma mente científica.
    O objetivo básico da pesquisa etnográfica de campo é mostrar nítida e claramente a constituição social e dividir leis e regularidade dos fenômenos naturais do que for irrelevante. O estudo é feito através de perguntas em situações reais e/ou hipotéticas - só assim os nativos conseguem falar sobre o tema proposto. Deve-se observar o comportamento das pessoas porque assim descobre-se o comentário de determinado assunto contido na mente do nativo.
    O Kula é um comércio intertribal entre comunidades num largo anel de ilhas. A troca desses artigos é acompanhada de rituais mágicos, fixados e regulamentados por convenções tradicionais. Os nativos não têm consciência da extensão do Kula. Para eles seu aspecto fundamental é a troca cerimonial de soulava e mwali (colares e braceletes de conchas).
    A posse temporária de algum deles constitui um símbolo da importância e da glória da aldeia, que são puramente ornamentais (recebido como um troféu). Kula é recebido por quem possui poderes obtidos pela magia ou por heranças familiares. Todos os nativos desejam participar do Kula, mas somente alguns o conseguem.
    Kula é um mecanismo sociológico, uma rede de relações sociais de influências culturais ampla, enraizada na tradição destes nativos.
    Os bens de Kula são manipulados ritualmente em alguns dos mais importantes atos da vida nativa, inclusive na morte.

Bibliografia
MALINOWSKI , Bronislaw.
Coleção Grandes Cientistas Sociais, Bronislaw Malinowski, editora Ática, 2000
Introdução : o assunto , o método e o objetivo desta investigação; Aspectos essenciais da instituição Kula (capítulo IV); O significado do Kula (capítulo V) .

Resenha – Introdução à Antropologia – ano 2002

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

A Sociedade primitiva - Diakov e Kovalev

Prefácio

  • A presença do homem na terra remonta a uma idade muito recuada. A existência da raça humana remonta à épocas imemoriais e se perde numa longínqua antiguidade.

Estado selvagem –> à babaria –> à civilização

  • A história da humanidade é uma só quanto à sua origem, uma só quanto à sua experiência e uma só quanto ao seu progresso.
  • Tema principal: as categorias de fatos que acompanham os caminhos do progresso humano do estado selvagem à civilização.

Primeira Parte: O desenvolvimento da inteligência através das invenções e das descobertas.

Capítulo I – Os Períodos Étnicos

  • Todas as formas de governo se reduzem a dois sistemas gerais: os sistemas 1 e 2
  • A gens é a unidade desta organização (sociedade), dando por integrações sucessivas durante o período arcaico a gens, frataria, a tribo e a confederação de tribos.

1- Baseia-se nas pessoas e nas relações puramente pessoais e caracteriza-se pelo fato de constituir uma sociedade.

2- Baseia-se no território e na propriedade e caracteriza-se pelo fato de constituir um Estado.

  • A organização territorial em propriedade marca os limites entre a sociedade antiga e a sociedade moderna.

Os Períodos

As Fases

I – antigo do estado selvagem

I – inferior do estado selvagem

Desde a infância da raça humana até o início do período seguinte.

II – médio do estado selvagem

II – média do estado selvagem

Do consumo de peixe e utilização do fogo até o início do período seguinte.

III – recente do estado selvagem

III – superior do estado selvagem

Da invenção do arco e flecha até o início do período seguinte.

IV – antigo da barbárie

IV – interior da barbárie

da invenção da arte da cerâmica, até o início do período seguinte.

V – médio da barbárie

V – média da barbárie

Da domesticação dos animais, no hemisfério oriental, e do emprego da irrigação na cultura do trigo e na agricultura, no hemisfério ocidental, assim como a partir da utilização do tijolo seco ao Sol e da pedra, até o início do período seguinte.

VI – recente da barbárie

VI – superior da barbárie

Da invenção do processo de fusão do minério de ferro e do emprego de instrumentos de ferro, até o início do período seguinte.

VII - Fase da Civilização

Do emprego de um alfabeto fonético e do uso da escrita, até a época contemporânea.

  • Esta divisão em períodos étnicos permite estudar uma dada sociedade segundo o seu grau de desenvolvimento e fazer dela um objeto independente de estudo e de investigação.
  • O estado de cada tribo é um fato material, ao passo que o tempo é imaterial.
  • Outra vantagem da divisão em períodos étnicos definidos consiste em orientar as pesquisas para as tribos e as nações que melhor e lustram cada fase, fazendo simultaneamente de cada uma, um modelo e um exemplo.

Capítulo II – As artes de subsistência

  • Os seres humanos foram os únicos que conseguiram dominar totalmente a produção alimentar, ainda que, de início, não manifestassem qualquer superioridade sobre o restante dos animais.

I – meios naturais de subsistência, à base de frutos e de raízes, num habitat limitado.

II – o peixe como meio de subsistência.

III – a cultura dos farináceos.

IV – a carne e o leite como meio de subsistência.

V – meios de subsistência ilimitados graças à agricultura.

  • As diferentes organizações em família:

I – família consangüínea à irmãos com irmãs

II – família punaluana à irmãos, cada um com as esposas dos outros e irmãs, cada uma com o marido da outra.

III – família sindiásmica ou por pares à homem e mulher.

IV – família patriarcal à um homem com várias mulheres.

Capítulo III – O ritmo do progresso humano

  • A civilização moderna recuperou e absorveu tudo o que era de valor nas civilizações antigas.
  • À medida que recuamos no tempo e na ordem da evolução, descendo assim a escala do progresso humano, as invenções tornam-se mais simples e mais diretamente relacionadas com as necessidades elementares. As instituições aproximam-se cada vez mais da forma elementar de uma gens formada por indivíduos consangüíneos, tendo à cabeça um chefe eleito, e a tribo composta por várias gens aparentadas, governada por um conselho dos chefes.
  • O desenvolvimento da humanidade tinha sido assinalado por uma série de invenções e de descobertas, mas não notaram tão claramente que as instituições sociais forneciam argumentos ainda mais concludentes.
  • Cada novo conhecimento adquirido e operante torna-se um fator de descoberta que possibilita outros conhecimentos, e assim sucessivamente até que se chega ao complexo saber de hoje.
  • O período selvagem foi o mais longo de todos e o período de civilização representa apensa uma pequeníssima parte da vida da humanidade.
  • Os instrumentos de ferro asseguraram ao homem a passagem à civilização.

Introdução à Antropologia – 2002 – Resumo p/ aula

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Evans-Pritchard – Os Nuer (caps. 4, 5, 6)

O clã Nuer é o maior grupo de agnatos que traçam sua descendência a partir de um ancestral comum, entre os quais está proibido o matrimônio e cujas eventuais relações sexuais são consideradas incestuosas; o relacionamento existente dentro de uma linhagem ou com outros clãs pode ser colocado em termos genealógicos: um clã é um sistema de linhagens e uma linhagem, um segmento genealógico de um clã.

Uma linhagem é um grupo de agnatos vivos os quais descendem do fundador dessa linha determinada; inclui pessoas mortas mas só são significativas enquanto sua posição genealógica explica o relacionamento entre os vivos.

Clãs e linhagens têm nomes, possuem símbolos rituais variados e observam certas relações cerimoniais recíprocas.

O parentesco agnático é sempre um relacionamento entre grupos de pessoas e é somente um relacionamento entre pessoas em virtude destas serem membros de grupos. Os grupos políticos e os de linhagem possuem certa correspondência, com freqüência têm o mesmo nome.

A linhagem é um termo relativo, dado que o alcance de suas referências depende da pessoa determinada que é escolhida como ponto de partida ao se traçar a descendência. As linhagens são grupos de uma profundidade de ao menos três gerações.

O clã Nuer (altamente segmentado) possui muitas características da estrutura tribal. Suas linhagens são grupos distintos apenas quando em oposição mútua. Os valores de linhagem são essencialmente relativos, tais como os valores tribais. Na teoria, todo homem é um fundador em potencial de uma linhagem, mas, na realidade, as linhagens originam-se de muitos poucos nomes.

A forma estrutural dos clãs permanece constante, enquanto que as linhagens reais são muito dinâmicas. As linhagens são grupos de agnatos vivos e a distância existente entre eles varia de acordo com as posições relativas que cada um ocupa na estrutura do clã.

Um clã Nuer é um sistema de linhagens. Os Nuer estão familiarizados até certo ponto com a amplidão total de seus relacionamentos genealógicos. Para um Nuer é necessário saber a qual linhagem determinado homem pertence. O relacionamento existente entre uma linhagem e outras do mesmo clã não é igualitário. Um sistema de linhagens segundo os próprios Nuer é: quando desenham no chão várias linhagens relacionadas eles as apresentam como várias linhas que partem, formando diversos ângulos, de um ponto comum. Eles vêem (sistema) enquanto relações concretas entre grupos de parentes dentro de comunidades locais, mais do que enquanto uma árvore de descendentes.

As linhagens Nuer não são consideradas cooperativas e os membros de uma linhagem os quais vivem numa área associada a ela consideram um grupo residencial e o valor de linhagem funciona através do sistema político. Cada aldeia Nuer está associada a uma linhagem e a comunidade da aldeia é identificada com eles.

Linhagens são segmentos dos clãs dominantes nas diferentes tribos (possuem a maior importância política). Em tribos e seções tribais existe muita mistura de linhagens dentro das comunidades. Segundo os Nuer as disputas e as lutas entre as linhagens levaram a sua dispersão, mas a migração levou a uma maior dispersão.

Dois fatores talvez tenham contribuído para a dispersão das linhagens, além da migração, das lutas, casamento interno etc. Os Nuer são fundamentalmente um povo de pastores com predominantes interesses pastoris e não se sentem ligados a nenhum lugar em especial; os mortos são enterrados rápida e toscamente em túmulos não visitados e esquecidos, raramente são feito-lhes sacrifícios.

Assim, os Nuer sempre se sentiram livres para perambular como bem lhes agradasse, e se um homem se sente infeliz muda-se para um setor diferente da região e vai morar com alguns parentes. Dificilmente um homem parte sozinho (seus irmãos constituem uma corporação e, se são filhos da mesma mãe permanecem juntos), normalmente vão para a casa de uma irmã casada (têm certeza de serem bem recebidos). Um homem o qual muda de residência torna-se assim membro de uma comunidade diferente e entra em relação íntima com a linhagem dominante daquela comunidade.

Uma linhagem Nuer nunca se funde inteiramente com outro clã: há certas práticas rituais que não podem ser partilhadas. Uma linhagem Nuer nunca é inteiramente absorvida ou perde sua herança ritual; ela só pode misturar-se com uma linhagem colateral do mesmo clã.

Enquanto os valores da linhagem controlam relações cerimoniais ente grupos de agnatos, os valores comunitários controlam relações políticas entre grupos de pessoas vivendo em aldeias, seções tribais tribos separadas.

É apenas a última associação entre uma tribo e seu clã dominante que torna politicamente importante o princípio agnático na estrutura da linhagem.

Existe em cada tribo uma relação definida entre sua estrutura política e o sistema de clãs. Cada um de seus segmentos tende a associar-se com um segmento da tribo. O clã dominante forma uma moldura (na qual é construído o sistema político da tribo).

O sistema de linhagens do clã dominante constitui um esqueleto conceitual (sistema de valores) ligando os segmentos tribais e fornecendo a linguagem em que suas relações possam ser expressas e dirigidas:

  • nem todo o clã ocupa uma posição superior numa tribo;
  • nem todo membro de um clã Nuer vive na tribo onde ocupa posição de superioridade;
  • um clã não é preponderante na tribo em que é dominante;
  • um homem só é um aristocrata na tribo em que seu clã tem uma condição superior e esta condição depende do fato de se residir em terras possuídas pelo clã (exceto quando o clã é dominante em duas ou mais tribos).

Quando os chamamos de aristocratas não pretendemos dizer que os Nuer os consideram “superiores” pois a idéia de alguém predominando sobre os demais lhes repugna; na verdade estes “aristocratas” têm mais prestígio do que posição, e mais influência do que poder.

As linhagens se separam de seus grupos localizados de parentesco, perambulam, juntam-se a outras pessoas ou outros clãs e se tornam membros de uma nova comunidade. Membros de uma linhagem geram filhos, tornam-se numerosos e espalham-se pela região; as relações íntimas entre eles cessam, vão viver no meio de outros clãs que se relacionam de longe com eles. Moram aí como amigos e aos poucos forjam novas relações agnatas através de casamentos internos e as linhagens se misturam em todas as comunidades locais.

As linhagens de “aristocratas” se separam e os segmentos procuram autonomia tornando-se núcleos de novas aglomerações sociais nas quais são os elementos aristocratas. Todo homem de posição acha que deveria ser um chefe, daí não se conclui que um homem deve ser um aristocrata para ganhar influência sobre seus companheiros de aldeia.

Existe em toda tribo alguma diferença de status mas as pessoas assim diferenciadas não constituem classes.

A aceitação de um membro permanente de uma comunidade como sendo um aristocrata concorda com a tendência geral entre os Nuer segundo a qual a descendência se subordinava à comunidade.

O grau de responsabilidade atribuído a um dano, as possibilidades de indenização oferecidas e o total pago como compensação dependem das relações das pessoas envolvidas na estrutura social. Nisso se baseia o Direito para eles.

As incertezas e as contradições sempre evidentes nas declarações dos Nuer a respeito dos pagamentos de gado de raça como indenização devem ser atribuídas à relatividade do status social, sempre relativo à distância estrutural ente pessoas.

Se uma pessoa estivesse visitando parentes ou afins e fosse morto numa disputa, seus anfitriões se considerariam na obrigação de vingá-lo e, se um membro de outra aldeia o matar, sua comunidade provavelmente não aceitaria esta definição de seu status, pois não se faz distinção entre os membros da própria comunidade com base na descendência em suas relações com outros segmentos políticos. Nas relações políticas, os laços são sempre dominantes e determinam o comportamento.

Os estrangeiros se ligam a um clã dominante de modo que o clã se torna a estrutura do sistema político. Como os Nuer identificam todos os lados sociais numa linguagem de parentesco, está claro que apenas o reconhecimento de laços mútuos de parentesco poderia levar a esse resultado.

Os Nuer estrangeiros não podem ser adotados nas linhagens do clã dominante ou em quaisquer outras linhagens Nuer. Os membros de todas as comunidades locais, enquanto se vêem como segmentos locais, expressam as relações de uns com os outros em função do parentesco. Isso é causado pelos casamentos mútuos.

Os Nuer, em geral, se casam dentro de sua tribo. Não há regras de exogamia baseadas na localização, estas são determinadas por valores de linhagem e parentesco.

As regras Nuer de exogamia rompem a exclusividade dos grupos agnáticos forçando seus membros a se casarem com membros de fora e, assim, a criar novos laços de parentesco. Dado que as regras também proíbem o casamento entre cognatos próximos, uma comunidade local pequena (aldeia) logo se transforma numa rede de laços de parentesco e seus membros são compelidos a procurar companheiros fora dela.

O círculo de relações próximas de parentesco limita-se a um pequeno raio que tende a se tornar cada vez mais restrito e as relações mais distantes à medida que nos aproximamos de sua periferia.

Os Nuer de outros clãs jamais podem identificar-se mais de perto com a linhagem dominante porque, por razões rituais, eles precisam continuar como unidades autônomas, mas politicamente se somam a ela através dessa categoria de parentesco.

Devido as regras exogâmicas, as linhagens são ligadas por vários laços cognatícios e de afinidade. Uma linhagem permanece com um grupo agnático exclusivo apenas em situações rituais. A estrutura agnática da linhagem dominante é um ressaltador somente no plano político.

Em todo segmento tribal pequeno existe uma linhagem do clã dominante da tribo associada a este segmento, e seus membros são juntados à linhagem por adoção, parentesco agnático ou ficções de parentesco.

Os valores de parentesco constituem as normas e sentimentos mais fortes na sociedade Nuer, e todos os inter-relacionamentos sociais tendem a ser expressos em função do parentesco.

A mitologia de clã mais rica é a que ilustra claramente a integração mitológica das linhagens de diferentes origens com o sistema de linhagem dominante numa estrutura política, demonstra como se atribuem valores de parentesco a relações territoriais.

Então, o sistema de linhagens de um clã pode ser considerado apenas até um ponto muito limitado como um registro verdadeiro da descendência. Não só sua profundidade temporal parece ser limitada e fixa, como também a distância entre linhagens colaterais parece ser determinada pela distância política entre as seções com que essas linhagens estão associadas, e pode-se supor que uma linhagem somente persiste enquanto linha distinta de descendência quando é politicamente significativa.

Um a bifurcação de linhagem é o reflexo de uma família polígama.

A unidade territorial está associada à linhagem; o objetivo é alcançar a unidade única do clã. As linhagens são, em número e posição estrutural, estritamente limitadas e controladas pelo sistema de segmentação territorial.

Todo Nuer homem passa da adolescência para a idade adulta, por uma iniciação bastante árdua: sua testa é cortada até o osso com uma pequena faca, e são feitos seis cortes de orelha a orelha. Essas cicatrizes permanecem para o resto da vida, e diz-se que algumas marcas podem ser percebidas até no crânio de um homem morto.

O cerimonial de iniciação é mais complexo, e o sistema etário tem maior importância social entre os Nuer do que entre os outros Nilotas do Sudão. Vários rapazes são iniciados ao mesmo tempo, pois acredita-se que se um rapaz é iniciado sozinho ele ficará isolado e pode morrer. Depois dessa iniciação é mais fácil cuidar deles e dar-lhe a atenção que exigem durante a convalescença. A iniciação pode ocorrer em qualquer estação do ano, mas são mais freqüentes no final da estação da chuva, quando há bastante comida e o vento Norte cicatriza as feridas. Após esta operação, os rapazes vivem em isolamento parcial e estão sujeitos a vários tabus.

O dia que praticam as incisões e no dia final do isolamento, eles fazem sacrifício e há festa, que incluem brincadeiras licenciosas e canções lúbricas. Somente os companheiros etários do pai do iniciado podem freqüentar a festa, os outros ficam a uma certa distância a fim de que não vejam a nudez das mulheres pertencentes ao seu círculo de parentes e de suas sogras.

Os conjuntos etários são organizados de modo independente em cada tribo, esses conjuntos não são organizações militares. Ao entender como é que o fato de pertencer a um conjunto etário determina o comportamento de um homem, primeiro tem-se que entender que não existe educação dirigida ou treinamento moral no procedimento de iniciação. Os guerreiros não podem casar e não gozam de privilégios, nem sofrem restrições diferentes, dos outros homens adultos.

São quatro apenas, os conjuntos que contam e, visto pelo indivíduo, eles se diferem em dois grupos de gerações de iguais e irmãos: mais velhos e pais ou mais moço e filhos.

O sistema de conjunto etário diferencia-se do sistema territorial e de linhagem sob um aspecto importante; dentro do sistema do conjunto etário, a posição de todo homem Nuer é definida estruturalmente em relação aos outros homens Nuer, e sua condição em relação a eles é de mais velhos, igual ou mais moço. É difícil descrever o termo de comportamento, pois as “regras” por eles estabelecidas, não raro, são de natureza muito geral. É possível destacar os seguintes pontos:

  1. Há certas observâncias e impedimento rituais entre membros do mesmo conjunto e também entre os conjuntos. Tem grande importância a segregação dos conjuntos nas festas com sacrifício e a proibição estrita de um membro de um conjunto enterrar um companheiro de idade ou partilhar de carne de animais sacrificadas em sua cerimônia mortuária.
  2. Um homem não pode casar-se ou ter relações sexuais com a filha de um companheiro de idade, ela é sua “filha” também.
  3. Os membros de um mesmo conjunto etário estão num mesmo pé de igualdade; são companheiros e associam-se para o trabalho, para a guerra e em todas as atividades de lazer.
  4. Espera-se que os membros de um conjunto demonstrem respeito pelos membros mais idosos.

Por estrutura social entendem-se relações entre grupos que tem um alto grau de coerência e constância; é também uma organização de grupo. A família não é considerada um grupo estrutural, pois não tem relações mútuas coerentes e constantes como os grupos, e desaparecem com a morte de um membro.

Entre os próprios Nuer a cultura é homogênea e são as relações ecológicas que fundamentalmente determina o tamanho e a distribuição dos segmentos.

Entre os Nuer, os relacionamentos geralmente se expressam em função de parentesco, que tem forte conteúdo emocional, mas viver junto conta mais, pois os laços da comunidade de um modo ou de outro se transformam em laços de parentesco, e o sistema de linhagem é transformado na forma do sistema territorial dentro do qual ele atua.

Comentário de seminário, Antropologia Clássica, ano de 2002:

Evans-Pritchard, E. – Os Nuer, São Paulo, Perspectiva, 1978 - (caps. 4, 5, 6)

Malinowski - Baloma: os espíritos dos mortos nas ilhas Trobriand (caps.: V, VI, VII, VIII)

Na vida tribal dos Kiriwinianos a magia possui uma função primordial, pois as atividades econômicas, a horticultura, a pequena caça, a pesca, a construção de canoas e as condições atmosféricas estão envoltas de magia.

A magia encontra-se muito difundida entre os nativos e um exemplo dessa “natureza geral” da magia está na magia da horta que é realizada pelo towosi (mago da horta) e consiste numa série de ritos complexos e elaborados cada qual acompanhado de uma fórmula. Todos os ritos constituem uma estrutura onde se insere o trabalho hortícola.

O towosi tem uma importância muito grande na gestão da horta e o respeito que obtém pelos seus conselhos é meramente formal, havendo assim um reconhecimento de sua autoridade por parte de todos.

A questão do tabu, varia de acordo com o sistema de magia da horta de cada aldeia.

As magias possuem virtudes que são suas fórmulas, sendo o lançamento destas a única razão de ser do rito, assim como o mecanismo correto de transmissão, em que verifica-se a presença dos baloma na magia.

Essa transmissão pode ser por tradição ou por invocação, ou seja, pelo apelo direto aos baloma ou pelo valor tradicional dos nomes ancestrais.

Há a transmissão das fórmulas pelo parentesco, pois há duas categorias de magia: a matrilinear, associada a uma localidade (magia local) e a patrilinear, transmitida de um lugar para outro (magia não local).

O baloma, no mundo inferior, pertence ao mesmo sub clã que o homem antes de morrer e a reencarnação dá-se igualmente dentro das fronteiras do sub clã.

Há entre os nativos dois fatos psicológicos importantes que é a crença na reencarnação e o desconhecimento das causas fisiológicas da gravidez, pois acreditam que a verdadeira causa da gravidez é sempre um baloma que é introduzido no corpo da mulher.

Há também na aldeia a associação de concepção e banho, em que recebe-se o waiwaia (espírito do bebê) dentro da água.

No entanto, a crença na reencarnação, embora seja universal e popular, não desempenha um papel importante na vida social.

Verifica-se que há a coexistência de duas crenças contraditórios entre si em relação a fecundação, pois não conhecem os fatores fisiológicos da fecundação.

Possuem, assim, uma vaga noção de relação entre sexo e gravidez e não fazem a menor idéia de que existe a questão da paternidade do filho, sendo assim, ignoram completamente a questão da embriologia.

O único termo genérico utilizado para designar parentesco é a veiola que significa parentesco na linha materna e não abrange a relação entre pai e seus filhos.

Os nativos possuem conhecimento sobre a fecundação dos animais e não a associa com a fecundação humana, pois desconsideram a questão da reencarnação e da formação de uma nova vida.

No entanto, acreditam na possibilidade de as mulheres engravidarem sem relações sexuais, pois pode-se dilatar a vulva com manipulação digital.

Sendo assim, o problema do desconhecimento da fecundação não se relaciona com a psicologia da crença, mas com a do conhecimento baseado na observação.

Sabe-se então que a vida sexual para Kiriwinianos é um estado normal e as relações sexuais são uma ocorrência quase tão comum como comer, beber ou dormir.

As leis sociológicas gerais têm de ser perspectivadas e enquadradas no local de estudo. É preciso ordenar, classificar e interpretar os dados colhidos no local e reportar-se ao todo orgânico da vida social nativa.

As leis para recolhimento de dados são:

  • separar fatos puros de especulações hipotéticas e classificar;
  • ordenar e estabelecer relações mútuas.

Outra noção importante é perceber que cada crença reflete-se nas instituições sociais e no comportamento do nativo.

Sendo assim, há regras para reduzir a crença a um dado:

  • formular perguntas;
  • procurar nos costumes

Há também a definição de idéia social ou dogma da crença: “É um princípio da crença personificado em instituições ou textos tradicionais e formulados pela opinião unânime de todos os informadores competentes”.

Concluí-se verificando que há fatores invariáveis da crença como: tradição e instituições assim como há os fatores variáveis da crença: atitude emocional e opiniões pessoais.

Comentário de seminário, Antropologia Clássica, ano de 2002:

Malinowski, B. – Magia, Ciência e Religião; Lisboa, edições 70, 1984 - (caps.: V, VI, VII, VIII)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Antropologia

Considerada de maneira ampla como o estudo científico do homem, definição esta que destaca inúmeros problemas que ilustram tanto a diversidade da antropologia hoje como seus aspectos unificadores. Um primeiro problema é que, se a antropologia como disciplina originou-se na revolução darwiniana, do século XIX, e teve como interesse a teoria evolucionista, seu desenvolvimento posterior foi uma reação à essas idéias evolucionistas e “progressionistas” sobre a sociedade e comportamentos humanos. A divisão da antropologia em dois ramos, social e biológico, evidencia essa rejeição. Outro problema encontra-se no surgimento da crítica feminista tornando mais cuidadosos o uso da palavra “homem” para designar a espécie humana como um todo. Essa fragmentação em elementos sociais e biológicos ainda é questionável, devido a coerência do próprio nome antropologia.

A antropologia se caracteriza por uma ênfase nas abordagens comparativas, nas variações mais do que nas normas do comportamento das sociedades, e numa rejeição das sociedades ou populações ocidentais como modelo para a humanidade. Os antropólogos sociais se concentravam nas sociedades não-ocidentais. O que sempre se considerou é que a experiência social humana é bem mais encarada como uma série de variações, cada qual com sua própria lógica cultural, e em particular que a sociedade ocidental não representa um padrão comportamental pelo qual essas outras culturas devem ser avaliadas.

Os antropólogos biológicos utilizam princípios e métodos biológicos para fornecer outro quadro comparativo. Este pode ser explicitamente evolucionista, comparando os seres humanos com outros primatas, ou pode ser um exame da extensão e natureza da variação biológica do homem hoje.

Na base de todos os ramos da antropologia existe a preocupação com o mapeamento da criação humana.

Sociedades primitivas: a descoberta pelos europeus da enorme variação nas sociedades humanas ocorreu basicamente no período de 1500 a 1900, acarretando necessidade de compreender como e porque essa diversidade ocorreu. A adoção de perspectivas evolucionistas durante o século XIX forneceu a base coerente para tal perspectiva. A evolução foi encarada como uma progressiva escala de mudanças natural, como estágios numa escala de progresso, que vai do primitivo ao avançado (tendo no patamar mais elevado a sociedade européia, ou industrial).

Apesar dessa idéia evolucionista ser a base para a antropologia moderna, o século XX foi marcado pela rejeição deste ponto de vista. Era necessário explicar os grandes impérios, e partiu-se para a interação entre observação e sociedade, desenvolvendo-se a observação participante, levando a rejeição das idéias de progresso das sociedades humanas. A experiência nas sociedades não-européias levou a percepção de que elas não eram tão simples e não podiam ser encaradas como estágios primitivos de sociedade. Ao substituir os conceitos evolucionistas por conceitos funcionais, ficou claro que as sociedades não-européias não eram tentativas primitivas de organização econômica e estrutura social, mas funcionavam bem como sistemas integrados em formações ambientais particulares.

Assim, abandona-se a idéia de hierarquias evolucionistas das sociedades humanas, dando-se maior importância às tradições culturais independentes e às estratégias sociais alternativas.

Cultura: conceito crucial da antropologia. Em um nível, refere-se às características de comportamentos que são exclusivas dos seres humanos em relação à outras espécies. Também traz consigo a noção de comportamento ensinado em vez de instintivo. O desenvolvimento da etnologia deixou claro que essa dicotomia aprendizado/instinto no comportamento animal não é válida e que outras espécies partilham de características que antes se achava particularmente humanas. Um outro nível, é o da capacidade humana de gerar comportamento. Em outro nível, encontra-se o ponto de vista de que tal comportamento está profundamente enraizados nas relações sociais e em outras características da sociedade. E finalmente o resultado de todos esses processos é o fenômeno das culturas humanas.

A cultura não é só um acumulo de tradições sociais. Ela está tão profundamente entrelaçada com todo o sistema cognitivo que a visão de mundo, em cada indivíduo, é construída pela experiência cultural e a ela está sujeita.

Relativismo cultural: desenvolveu-se na antropologia social como um meio de enfatizar tanto a dificuldade de se fazer comparações entre culturas quanto a ausência de quaisquer critérios independentes para se formar juízos sobre os méritos relativos de diferentes tradições sociais. Em seu ponto mais extremo, o relativismo cultural adota o ponto de vista de que uma cultura só pode ser considerada dentro do contexto de suas próprias tradições e lógicas culturais.

A unidade da espécie humana: as abordagens biológicas da antropologia abriram caminho para a visão, predominante neste século, de que a humanidade é unificada, unida por uma herança biológica, imensamente maior do que qualquer uma das diferenças. A aceitação da unidade da espécie humana é hoje um consenso fundamental, formando a base de muitas idéias que vão além do estritamente biológico.

A diversidade humana: do mesmo modo que os antropólogos sociais se concentraram na diversidade das formas culturais humanas, os antropólogos biológicos também se voltaram para a diversidade biológica. A diversidade de aparência dos seres humanos, particularmente em aspectos como cor de pele e a forma do rosto, deram créditos ao ponto de vista de que as populações humanas podiam ser divididas em unidades distintas, representando exemplares geográficos isolados ou estágios de evolução, e se tornaram a base da análise da variação humana em termos de raça.

Durante a maior parte do século XIX e início do século XX, raça foi o conceito central no estudo da diversidade biológica humana. As raças forneceram uma categorização do ser humano tanto na horizontal (ou seja, geográfica) quanto vertical (ou seja, através do tempo). O conceito de raça foi usado também como explicação para as diferenças em termos de padrões de desenvolvimento. Na antropologia recente, raça foi completamente rejeitada como noção biológica e analítica de alguma utilidade. Trabalhos recentes de antropologia biológica mostram que raça não é um conceito biológico útil.

A evolução humana: a contribuição da antropologia às idéias deste século retorna a sua preocupação com a evolução humana, mas com outra ênfase. A evolução não mostra uma escalada de progresso, mas uma fonte de diversidade; ao invés de fazer com que os humanos remontem cada vez mais no tempo, ela enfatiza cada vez quanto a espécie humana é jovem e assim, a unidade das populações humanas.

A antropologia moderna: entre os antropólogos sociais, houve maior concentração nos laços entre processos culturais e processos econômicos, políticos e sociológicos, conduzindo a uma crescente ênfase nos aspectos culturais da cognição. Além disso, as mudanças marcantes nas sociedades tradicionais estudadas pelos antropólogos levaram-nos a se envolver de forma cada vez mais profunda com os problemas di desenvolvimento e da sobrevivência, dessas mesmas sociedades. Da mesma forma, os antropólogos biológicos vêm trabalhando cada vez mais com os problemas de doença e nutrição do Terceiro Mundo, e fornecendo especialmente uma compreensão maior dos aspectos populacionais que revestem os problemas ecológicos com os quais se defrontam vastos setores da população humana.

Dicionário do Pensamento Social do século XX – “Antropologia” – pag. 22 - 27