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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Resenha: “Classe, Estamento, Partido” – Weber – Gerth & Mills (org)

      Esse texto de Weber é muito conceitual, ele mostra o significado de cada termo suas características e compara-os entre si.
      Para Weber, as classificações que ocorrem na sociedade (classes, estamentos, partidos) são conseqüências da distribuição de poder; para ele tudo é influenciado pelo poder, principalmente o poder econômico, mesmo este não sendo reconhecido (geralmente) como base de honras sociais, a forma que essas honras são distribuídas é chamada de ordem social.
      Para uma pessoa estar numa classe ela deve se encontrar numa situação de classe comum às outras pessoas da classe, porém as classes não devem ser confundidas com comunidades, pois a ação comunitária que cria a situação de classe é uma ação entre membros de classes diferentes. As principais categorias para se classificar alguém numa situação de classe é a “propriedade” ou a “falta de propriedade”. As propriedades se distinguem pelo seu tipo e pelo tipo de serviço prestado, quem não tem propriedade se diferencia pelo tipo de serviço que presta e pela forma que faz uso deste serviço, como isso é uma situação de mercado, nesse caso a situação de classe é uma situação de mercado.
      Os estamentos são diferentes das classes pois eles são comunidades e são determinados pela honra e não pela situação econômica. Um estamento pode evoluir para uma “casta” fechada, mas só chegam a esse ponto quando há grandes diferenças “étnicas”. As classes se estratificam de acordo com suas relações  com a produção e aquisição de bens enquanto os estamentos se estratificam de acordo com os princípios de seu consumo de bens, representado por estilos de vida especiais.
      Os partidos vivem sob o signo do “poder” e tem em oposição às classes e ao estamento que suas ações significam sempre uma socialização e a meta dessa ação pode ser uma causa ou ser pessoal; sua reação é orientada para a aquisição de poder e pretendem influenciar o domínio existente. Os partidos podem representar situações classistas ou estamental.
      Assim, Weber definiu os termos com base nas relações econômicas e de poder, fala pouco sobre luta de classes (só faz um pequeno resumo cronológico de como essas lutas vem evoluindo no decorrer do tempo), , dá impressão que ele pensa como um cientista e não como uma pessoa da sociedade como nos textos de Marx que foram lidos.

Teoria das Classes Sociais – ano 2002

domingo, 8 de novembro de 2009

Resumo: A Origem da Desigualdade entre os Homens - Ralf Dahrendorf

      Em seu texto, Dahrendorf discute a sociologia e para isso usa o tema da desigualdade, contrapondo tórias de vários autores.
      Para o autor existem quatro tipos de desigualdade: 1) diferenças naturais de espécie nos traços, no caráter e nos interesses; 2) diferenças naturais de nível de inteligência, de talento; 3) diferenciação social de posições de níveis essencialmente iguais; 4) estratificação baseada na reputação e na riqueza e expressa na ordem hierárquica de status social. O que é de interesse no texto é o quarto tipo de desigualdade que é a estratificação.
      Então o autor começa colocando o pensamento de Aristóteles sobre a desigualdade; para este os homens são desiguais em hierarquia, havendo uma hierarquia natural entre eles. Depois, o autor fala sobre a teoria de Rousseau; para este existe um Estado de Natureza onde todos são iguais, e a desigualdade surge com o aparecimento da propriedade privada, enquanto para Marx, além da origem da propriedade, a desigualdade existe também por causa da divisão do trabalho (que também é trabalhada por Durkheim).
      Dahrendorf fala sobre as normas, que para ele é o motivo de existir desigualdade nas sociedades humanas, que são regidas por normas de comportamento. Para ele existe igualdade quando não existe lei, a partir da existência de leis surge a desigualdade. Ele tem as normas como fator da estratificação social.
      O autor conclui dizendo que a desigualdade social é importante para a integração das sociedades; e que essa desigualdade é o impulso para a liberdade; para ele uma sociedade igualitária é irrealista e terrível.

Teoria das Classes Sociais – ano 2002

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Resumo: “Reflexões sobre a mudança social no Brasil” – Florestan Fernandes

    O foco desta análise é a mudança social. Nos países subdesenvolvidos almeja-se o desenvolvimento em ritmo acelerado, o progresso rápido, porém qualquer tipo de progresso ou desenvolvimento se depara com os interesses de classe, que nem sempre são a seu favor. Em um plano econômico e social a mudança atua sobre cada círculo social alterando as relações entre eles, essas mudanças geram alterações internas, obrigando os grupos a se relacionarem de maneira diferente, a fim de alcançarem os seus objetivos. Tendo que os círculos possuem concepções e interesses sociais de classe, as mudanças se adaptam à estrutura e à dinâmica do poder. Isso quer dizer que o desenvolvimento no Brasil assume caracteres subordinados ao domínio elitista.
     Para que ocorra o “arranco econômico” é preciso que ocorra uma grande mudança na herança cultural tradicional, já que “o conservador no Brasil não sabe o que deve nem o que tem de preservar e muito menos porque e para que deveria ou teria de conservar essas coisas. A oposição ao progresso nasce de uma desconfiança por assim dizer tribal diante da inovação” (1963:35). Existe a resistência por parte dos princípios patrimonialistas da herança histórico-social do país. Essa intenção de impedir a mudança, do meu ponto de vista, pode ser percebida, nos dias de hoje, através dessa greve dos funcionários públicos que não querem a reforma da Previdência, eles não colocam uma contra-proposta, apenas não querem que ela ocorra, pensando em si próprios.
    Mas a mudança acontece mesmo com a herança histórica de dominação, só que ela ocorre de acordo com os padrões da vontade das classes dominantes (desenvolvimento prescrito pela elite). É exatamente esse conflito entre tradicional e moderno que irá levar ao desenvolvimento econômico, político e social. A mudança não significa o fim imediato do processo tradicional. Pelo contrário, sempre se procura manter o patrimônio cultural e moral, mas é aí que está o problema, a elite não está pensando nos padrões morais e sim apenas na manutenção do status quo. A elite quer a manutenção de sua posição social enquanto classe no poder, e tem medo de perder seu lugar na estrutura de poder, por isso só aceitam as inovações que não alteram sua perspectiva de desenvolvimento. As inovações, nesse sentido, não devem fazer história, pois retraem as possibilidades de industrialização, ciência e tecnologia.     Para haver mudança da estrutura no Brasil não se deve pensar em revolução, mas sim em reforma, e para haver reforma real é preciso por fim em alguns padrões de desenvolvimento histórico-sociais.
    Neste contexto a população acaba ficando distante das reflexões por mudança e não conseguem se adaptar aos princípios culturais, gerando problemas econômicos, políticos e sociais. A elite dominante propaga o obscurecimento das alterações desajustando a possibilidade de articulação da massa popular como política participativa. Tenta-se alienar o povo, barrar a formação de uma consciência de classe e a formação de uma democracia. Dentro deste conflito é que o autor começa a perceber a entrada de um novo agente social que é o povo. A indústria traz o povo para a cidade e embora ainda exista a dominação, esse grupo encontra a necessidade de deixar a alienação e tomar papel social.
    Segundo Florestan o que levou as elites a controlarem as mudanças foi o fato de a sociedade brasileira ter herdado os padrões coloniais que condicionaram a formação a formação dos círculos sociais no Brasil, que se chocam quando a questão é a mudança. A princípio as coisas não se alteram, pois os valores e interesses que regem as mudanças são conservantistas. Mas houveram processos econômicos, políticos e sociais que aceleraram a desagregação do antigo regime e provocaram mudanças na composição da camada social dominante, porém manteve-se as relações de interesses e valores patriarcais. Para Florestan as modificações têm que ser graduais e manter alguns princípios tradicionais que vão se adaptar e consolidar uma nova ordem social, do contrário há prejuízo para a coletividade.
    No Brasil a democracia era controlada pelas escolhas das minorias e não pela coletividade, para por fim a isso é preciso que se consolide a ordem social democrática. Para Florestan a democracia social irá neutralizar o forte poder das elites, e as classes populares terão suas idéias levadas a sério. Assim, diminuirá o desequilíbrio que havia no processo de mudança social, valorizando as necessidades da coletividade. Essa relação que se vê entre populares e elite dominante é derivada do surgimento da idéia de sociedade global, de globalização, igualdade, segurança e coletividade. Assim, os novos círculos sociais vão se fortalecendo diante do desenvolvimento e com isso surgem conflitos que vão dar a possibilidade de uma sociedade integrada à sua maneira.
    Com a tecnologia e com a indústria houve a inovação cultural que depende dos novos grupos de organização (as classes populares). A elite se mantinha no domínio das escolhas do desenvolvimento o que a levou a rearticular-se em busca de um novo padrão de domínio já que a propriedade e o poder não asseguravam a sua força. Assim, escolheram a intelectualidade como forma de dominar os homens, porém Florestan diz que para haver avanços reais é necessário que a intelectualidade e o conhecimento se adequem aos novos grupos sociais formados pelo capitalismo os quais se opõem à estagnação cultural promovida pelo tradicionalismo.
A intelectualidade é um ponto importante para Florestan. Não se pode esquecer que o próprio cientista está inserido na sociedade e que durante muito tempo as ciências foram manipuladas pelo tradicionalismo. Assim, é necessário abandonar os conceitos pré-concebidos para a abstração da análise, mas isso é impossível, assim não há como criar uma estrutura esquemática que explique todas as funções sócio-culturais e a história. O mal da sociedade brasileira é não ter grande número de intelectuais desvinculados do tradicionalismo. Os intelectuais não fazem as mudanças, mas são peças fundamentais para que elas ocorram.
    Mesmo com a mudança atendendo a todas as camadas sociais, ainda existe o monopólio do conhecimento pelos privilegiados, o crescimento econômico abafa as classes populares e reafirma a tradicionalidade. Para que o desenvolvimento seja real é preciso que o povo se adeque a um regime em que as opções para a civilização sejam orientadas para o benefício da totalidade, ocorrendo um equilíbrio das opções predominantes no consenso da maioria.

Sociologia do Desenvolvimento – ano 2003

Resumo: Obstáculos Extra-econômicos à Industrialização no Brasil – Florestan Fernandes

      O processo de desenvolvimento de um país é caracterizado simplesmente pelas mudanças nas condições materiais da sociedade, e essas mudanças são condicionadas pelos horizontes intelectuais dos indivíduos que são as exigências histórico-sociais.
      O ponto central do estudo é saber qual é o papel do cientista social na sociedade. O cientista social se insere na realidade social, e deve incitar a mudança, e quanto maior for a contaminação do cientista, melhor sua visão. Essa intervenção da ciência entra no processo para orientar, para “arrumar” o que está desordenado. A prática social do outro pode ter erros que o cientista vê necessidade de ordenar, de recuperar. O cientista faz a leitura das instituições para tornar mais simples a explicação do mundo.
      Não se pode pensar que a industrialização modifica a estrutura lógica dos países. Do ponto de vista de Florestan Fernandes a mudança social do Brasil ocorreria com ou sem os empresários. Não é porque a mudança ocorre que ela é boa, existem desequilíbrios e desafios que os próprios empresários criam. Derivado da ignorância da instituição do empresariado, as outras instituições não avançam com o progresso. Os agentes do progresso (Estado, força de trabalho, tecnologia) são limitados pela ação dos empresários. O papel do cientista social na articulação com o empresário é melhorar a capacidade material do empresário que vai ajudar no desenvolvimento dos agentes de progresso.
      As práticas dos cientistas não necessariamente influem nas escolhas racionais dos empresários. O que os empresários tem como seu projeto de desenvolvimento não chega aos padrões de desenvolvimento que as ciências sociais expõe. O cientista expõe a melhor maneira para que o empresário chegue a esse desenvolvimento que tanto prega. O empresário se desenvolve quando passa a pensar em movimento e aperfeiçoamento.
      Assim, o papel do cientista social é entender como as instituições se colocam para o desenvolvimento e depois subsidiar o avanço destas instituições, pois desenvolvimento é o avanço de todos. O cientista social tem que perceber o que está degradado, ele não só reflete a necessidade do conhecimento, mas também prioriza o que é relevante para as políticas nacionais. O conhecimento deve ter aplicabilidade na realidade nacional, é preciso provocar novas práticas sociais, ajudando o outro a fazer suas escolhas, para se ter extensão.
      “A contribuição prática dos cientistas sociais brasileiros só será útil e frutífera se eles corresponderem a seus papéis intelectuais específicos, deixando aos empresários a responsabilidade pela defesa dos interesses da empresa industrial no plano econômico, inclusive no que diz respeito à utilização de técnicas e de conhecimentos fornecidos pelas ciências sociais. Assim, ambos poderão contribuir melhor para o futuro da civilização industrial no Brasil” (1979:92).

Sociologia do Desenvolvimento – ano 2003

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Trabalho Final de Sociologia das Profissões

1. INTRODUÇÃO
    A ordem patrimonialista de organização que dominava a sociedade agrária do Brasil, também esteve presente nas relações de trabalho. A deterioração do sistema agrícola causado pela industrialização capitalista fez com que a ordem patrimonialista se alterasse para uma nova ordem de organização social, no caso a burocracia.
    O objetivo deste trabalho é mostrar a organização trabalhista no período agrário (portanto, ordem patrimonial / tradicional) e como se altera no período industrial (ordem burocrática / legal), e a partir disso mostrar três teorias da Sociologia das Profissões, e mostrar como essas teorias se encaixam na sociedade brasileira.
    A hipótese é a de que no sistema patrimonialista não se pode falar em profissão, já que o sistema repousa sobre a tradição, onde a elite dinástica recruta a mão-de-obra conforme as relações tribais e de família, favorecendo empregados dóceis e leais, ao invés de favorecer necessariamente os mais produtivos, e por isso, estes trabalhadores não desenvolvem habilidade e conhecimento suficientes numa tarefa, a ponto de serem considerados profissionais.
    O debate internacional sobre profissões é bem extenso e divergente em alguns pontos, mas o que os autores tem em comum é a crença no profissionalismo como um fator positivo que mostra o desenvolvimento de uma sociedade, principalmente de uma sociedade que vem de uma organização tradicional, como é o caso do Brasil.
    Para realizar este trabalho serão analisadas as mudanças nas relações trabalhistas no Brasil, partindo das relações patrimonialistas e como se insere a ordem burocrática (necessária a sociedade moderna), através do livro “O Brasil Arcaico” (Lopes, J R B). Em seguida será apresentados três pontos de vista da Sociologia das Profissões, sendo eles: teoria do profissionalismo (Freidson e Larson) e a teoria das competências (Kober). O fechamento do trabalho se dará numa breve conclusão sobre os pontos de vista e a sociedade brasileira.

2. DA ORDEM PATRIMONIAL PARA A ORDEM BUROCRÁTICA
    Durante o período agrário no Brasil a organização social foi baseada no sistema patrimonialista de poder. Este sistema tem como característica principal a tradição, nele o sistema político é paternalista (Estado paternalista) e o sistema econômico também (administração paternalista).
    O padrão patrimonialista de poder predomina até sobre as relações de trabalho, onde as relações de família controlam o acesso à classe de administradores. Diretores e técnicos de carreira são empregados, mas ficam subordinados aos membros das famílias dos proprietários. A administração patrimonial é paternalista na sua relação com a classe operária, pois deve-se cuidar do operário, que por sua vez, deve ser leal aos patrões. As normas são feitas pelos administradores e o recrutamento da mão-de-obra depende das relações de família e, por isso serão favorecidos empregados dóceis e leais, ao invés de favorecer necessariamente os mais produtivos. O contrato de trabalho é verbal e indefinido, visando assegurar o cumprimento das obrigações do trabalhador, sem qualquer limitação específica de horário ou determinação rígida dos dias para a execução das tarefas de que dependerão os resultados desejados. Não implica o contrato, apenas na realização de serviços de sentido econômico, mas também na completa sujeição política do trabalhador ao patrão.
    Com a decadência agrícola e o início da industrialização no Brasil (fins do séc. XIX, começo do séc. XX) tem-se a quebra do padrão patrimonialista de relações de trabalho. Pois novas normas, como, a liberdade de movimentação do trabalhador rural, e a introdução do vínculo monetário nas relações de trabalho, são introduzidas nas indústrias, normas estas que não cabem na organização tradicional. Nas primeiras industrias, os cargos de mestres e contramestres levam em conta a competência, mas não deixa de lado a confiança do chefe. A competência agora é como se demonstra lealdade aos patrões. Não se deixam as características da administração patrimonial de lado, mas aos poucos elas vão se tornando incabíveis na sociedade industrializada.
    O fenômeno básico que ocorre é a transformação da sociedade capitalista: a separação entre controle e a propriedade, propiciada pela moderna sociedade anônima, a concentração econômica sem precedentes, o aparecimento do oligopólio como estrutura fundamental de mercado, a participação crescente do Estado na vida econômica, entre outros fatores. Com a concentração industrial, burocratizam-se as organizações econômicas, alterando as organizações nas empresas. Certos aspectos dessa burocratização, tais como a crescente racionalidade e impessoalidade da organização, a fragmentação das tarefas industriais, a separação cada vez mais nítida entre o planejamento e a execução do trabalho, assim como o desenvolvimento do sindicalismo moderno, são processos básicos, sem os quais não se entende as relações de trabalho modernas.
    Assim, tem-se uma alteração da ordem patrimonial (tradicional), onde o senhor trata a administração como coisa particular sua, selecionando servidores e atribuindo-lhes tarefas específicas, de momento a momento, na base da confiança pessoal, sem estabelecer para eles delimitação clara de funções ou uma dada divisão de trabalho. Passando para uma ordem burocrática (legal), onde as atividades são conduzidas por um sistema geral de normas e os deveres de cada funcionários são delimitados por critérios impessoais, cada funcionário tem a autoridade necessária para exercer suas atribuições, os meios de coerção são delimitados e as condições que legitimam seu emprego são claramente definidas, a responsabilidade e autoridade de cada funcionário fazem parte de uma hierarquia de cargos, as atividades, o local de trabalho, o equipamento e o dinheiro da organização são separados das atividades, domicílios e propriedades particulares, as tarefas administrativas, pelo menos as especializadas, pressupõem em geral treinamento especializado e a administração baseia-se em documentos escritos. Essa burocratização é fundamental para a sociedade moderna.
    A seguir serão analisadas as teorias de Freidson, Larson e Kober, mostrando suas divergências e como elas se encaixam neste processo de transição no Brasil.   

3. SOCIOLOGIA DAS PROFISSÕES
    O estudo das profissões é abordado de forma sistemática na sociologia somente a partir da metade do século XX, e existem vários autores e várias teorias que debatem neste campo. Aqui será tratado das teorias de profissionalismo de Eliot Freidson e Magali Larson e da teoria das competências de Claudia Kober.
    Eliot Freidson cria uma teoria do profissionalismo e consolida o paradigma do poder das profissões, com a sua análise das profissões.
    Para ele, uma profissão é um tipo de ocupação que se distingue das outras por seu conhecimento e competência especializados, que são necessários para a realização das tarefas numa divisão de trabalho, ele identifica profissão como um princípio ocupacional de organização do trabalho.
    Para o autor é importante ter conhecimento especializado, tanto formal quanto abstrato. Esse conhecimento é adquirido através de uma formação especializada, que é dada pelo ensino superior, o monopólio deste conhecimento é uma condição para se ter acesso ao mercado de trabalho. O controle rigoroso da formação e do exercício profissional é a base do poder das profissões e dos privilégios que são garantidos pelas universidades, pelas associações profissionais e pelo Estado.
    Freidson sublinha três fatores imprescindíveis para o poder das profissões: a autonomia, onde o trabalhador decide sobre o próprio trabalho (o trabalhador individual é soberano); a expertise, que é o monopólio do conhecimento abstrato; e o credencialismo (ou gatekeeping), que permite o controle institucionalizado sobre os recursos desejados, podendo as profissões controlar o acesso aos domínios, julgar e solucionar problemas.
    Freidson diz que cabe à administração determinar qual é o trabalho a ser feito, como será realizado e por quem, fragmentando, mecanizando e racionalizando as tarefas em busca de maior eficiência e melhores resultados financeiros. O autor coloca que com o aumento do profissionalismo, dos trabalhadores com nível superior e valorização do status profissional, a administração perde sua força, pois quando uma ocupação se profissionaliza, mesmo que seu trabalho continue a ser feito numa organização, a administração pode controlar os recursos relacionados com o trabalho, mas não pode controlar a maior parte do que os trabalhadores fazem e como fazem, já que o controle e a autoridade passam a ser exercidos pelos próprios trabalhadores profissionais de forma autônoma. A administração não teria a capacidade de coordenação imperativa (como na organização tradicional).
    Assim, para Freidson, as profissões detém o poder, que é garantido pelo monopólio do conhecimento, pelas credenciais e pela autonomia. A administração perde seu poder de controle.
    Magali Larson analisa as profissões fazendo uma síntese das teorias marxistas e weberianas, ela estuda as profissões como grupos de interesses. Para ela “o estatuto profissional constitui uma barreira a uma sociedade igual e justa; só que a causa não está no poder das profissões sobre os clientes ou sobre o mercado, mas na ideologia do profissionalismo, que seduz os profissionais e os faz acreditar nas instituições burguesas. Os profissionais tem em comum não o conhecimento, não a autonomia, mas a ideologia”. Ela concentra a sua análise dos processos de subordinação das profissões pelas grandes e complexas instituições do capitalismo e na forma como a ideologia do profissionalismo pacifica os próprios profissionais.
    A autora define profissões como “ocupações produtoras de serviços ‘especiais’ que conseguiram alcançar controle sobre o mercado para as suas competências”. Para ela a profissionalização seria um processo de fechamento social pelo qual os grupos procuram maximizar os seus resultados e os seus recursos, limitando o acesso a um pequeno grupo de candidatos. Tais processos implicam a exclusão e a oposição a outros grupos, e se justificam pelo interesse coletivo de serviço. A autora destaca os mecanismos de exclusão e diferenciação social que são conseqüências do estabelecimento de proteções ou monopólios de mercado, diferentemente de Freidson que realça os mecanismos de aquisição de autonomia e poder alternativo.
    A delimitação do mercado de trabalho pelas comunidades profissionais e o fechamento sobre um mercado de serviços profissionais se dá através do controle do acesso à profissão (controle do sistema de ensino) e a proteção do mercado (sistema de licenças). Assim, para a autora, a profissionalização é uma afirmação coletiva de um estatuto especial e um processo de mobilidade social coletiva.
    Freidson faz uma crítica a teoria de Larson, pois acha que seu trabalho é extremamente influenciado pelo marxismo e pela teoria clássica do capitalismo, quando ela faz uso do termo monopólio/fechamento, ela não concorda com essa posição da autora. 
    Larson também fala sobre o declínio do poder das profissões, para ela as condições para o trabalho profissional mudaram muito: tem-se a passagem do profissional livre num mercado de serviços para o especialista assalariado em grandes organizações. Ela coloca que a história das profissões está ligada a origem do capitalismo das grandes organizações: com o crescimento em dimensão e complexidade, as unidades produtivas experimentaram uma grande necessidade de administração e planificação burocrática. O primeiro fator que contribuiu para essa identificação entre capitalismo e profissões foi a padronização dos serviços profissionais, possível com a padronização da formação, igualando competência técnica a número de escolaridade e credenciais formais.
     A autora não opõe profissões e organização burocrática, para ela a estrutura das profissões contemporâneas é complementar com formas burocráticas de organização, já que as profissões dependem de se incorporar nas organizações burocráticas. Ela considera os profissionais como funcionários proletarizados, mesmo que estes acreditem que têm autonomia.
    Assim, Larson desvaloriza o poder das profissões que é sublinhado por Freidson.
    Cláudia Kober faz uma análise da “teoria das competências”. Ela combina cinco elementos para construir o “modelo das competências”:
        1. normas e recrutamento que privilegiam o “nível de diploma”
        2. valorização da mobilidade e do acompanhamento individualizado da carreira
        3. novos critérios de avaliação, que privilegiam as qualidades pessoais e relacionais como responsabilidade, autonomia, capacidade de trabalhar etc.
        4. instigação à formação contínua, o aprender sempre.
        5. desvalorização dos antigos sistemas de classificação fundados nos níveis de qualificação e originados nas negociações coletivas. Privilegiamento das negociações individuais de salários e benefícios.
    Este modelo contribui para profundas mudanças na construção das identidades profissionais dos indivíduos, dificultando a sua identificação com a profissão (para qual estudaram inicialmente) ao longo de sua vida profissionalmente ativa, provocando uma identificação cada vez mais difusa com a sua profissão original e contribuindo para uma perda do poder ligado às profissões.
    O “modelo das competências” centra sua atenção no indivíduo e não no posto de trabalho, realçando a importância da autonomia de decisão para a avaliação de resultados em relação a metas estabelecias pela administração. A lógica da competência flexibiliza a organização do trabalho. O percurso da carreira não vai mais se apoiar na sua formação educacional, mas na avaliação feita pela empresa das suas qualidades pessoais e interpessoais.
    Seguindo esta lógica, cada um se torna senhor absoluto do seu próprio destino, tanto na construção de oportunidades e auto-desenvolvimento, como na responsabilidade pelo seu próprio fracasso ou exclusão, por não conseguir “administrar” a sua carreira de forma adequadas aos novos moldes. Esta nova organização baseia-se no trabalhador ‘flexível’, que desenvolve sempre novas competências e passa a atuar em áreas de diferentes expertises. O trabalhador troca de campo de atuação diversas vezes ao longo de sua vida profissional, e isso distancia o indivíduo da sua identidade profissional original, entrando, esta teoria, em confronto com a profissionalização. As identidades não são construídas somente nos anos de formação superior, e também a identidade formada ali pode não perdurar ao longo da vida do indivíduo, isso porque, a identidade humana se constrói ao longo do processo de desenvolvimento.
    Kober coloca que não há um enfraquecimento do princípio administrativo sob a lógica do modelo das competências, ao contrário de Freidson, para ela ocorre uma reformulação que tende a manter o controle do trabalho e das carreiras cada vez mais nas mãos da administração. Assim, a administração não ganha apenas poder, mas ganha em submissão, e na conseqüente perda de autonomia profissional, que vai totalmente contra a tese de Freidson.
    No modelo das competências não se trata mais de “saber fazer”, mas sim, de “saber ser”. É preciso que os indivíduos estudem cada vez mais. Porém o diploma superior perde seu valor, mesmo sendo exigido, não se deve a complexidade do trabalho e necessidade de conhecimentos científicos e abstratos, mas a expectativa de que indivíduos que tenham passado por universidades tenham o seu modo de ser adequado às novas necessidades do mundo do trabalho.
    Kober retrata novas características de um profissional, que agora não deve saber muito sobre um só assunto, mas um poço de tudo.

4. CONCLUSÃO
    A partir das teorias apresentadas, podemos perceber que a análise de Freidson se assenta sobre três pilares: autonomia, monopólio do conhecimento e credencialismo, esses fatores não são encontrados nas relações de trabalho numa sociedade tradicional, assim, a partir da teoria de Freidson só se pode falar em profissão no Brasil, após início do desenvolvimento industrial, quando ocorre a burocratização da ordem da sociedade.
    Em relação a análise de Larson também só podemos falar em profissão a partir do desenvolvimento da sociedade capitalista e sua conseqüente burocratização, já que ela vê a história das profissões e o desenvolvimento intimamente ligados.
    Já, com relação à análise de Kober, podemos perceber que ela traz uma nova visão do mundo do trabalho profissional, onde não se valoriza somente o conhecimento específico, mas sim o relacionamento entre as pessoas que irão trabalhar juntos, o conhecimento de diversas áreas, remete a uma confiança entre empregado-empregador, podemos, então, colocar a lógica do modelo das competências como a que predomina na sociedade atual, e é a que mais se assemelha a relações de trabalho na sociedade patrimonial.
    Assim, percebe-se que a ordem patrimonial não deixou de existir, ela foi remodelada, e ainda aparece com novas características.

5. BIBLIOGRAFIA
    FREIDSON, Eliot – “Para uma análise comparada das profissões: a institucionalização do discurso e do conhecimento formais”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, n°31, junho de 1996, pág. 142-154.
    KOBER, Claudia Mattos – “Profissões e competências”. Trabalho apresentado no XI Congresso Brasileiro de Sociologia. Campinas. Unicamp. 2003
    LOPES, Juarez Rubens Brandão – “Crise do Brasil Arcaico – Estudo da mudança das relações de trabalho na Sociedade Patrimonialista”. Difusão Européia do Livro. São Paulo, fevereiro de 1967
    RODRIGUES, Maria de Lurdes – “Sociologia das Profissões”. Celta, Portugal (Oeiras), 1997, pág. 1-128

Obs.: a idéia para esse trabalho era comparar três teorias da Sociologia das Profissões (de todas as apresentadas durante o curso) e comparar através de algum fator em comum.

Trabalho Final de sociologia das Profissões – ano 2004

domingo, 1 de novembro de 2009

Trabalho Final de Sociologia Contemporânea – Bourdieu X Giddens

    Os autores Pierre Bourdieu e Anthony Giddens, que terão suas opiniões colocadas neste trabalho e relacionados ao problema da globalização, cultura e multiculturalismo, tentaram sintetizar o subjetivismo e o objetivismo.
    O questionamento de Bourdieu começa quando ele percebe que as pessoas não respeitavam as estruturas (mesmo achando que na teoria do estruturalismo faltava uma teoria da ação, que foi “deixada de lado” por seu formulador Lévi-Strauss – Lefort. “A troca e a luta dos homens”), isso porque a vida real não é organizada de modo que é difícil seguir essas estruturas. A forma estrutural tem influência da lingüística (estudos feitos por Saussure), onde a fala é a manipulação superficial da linguagem, do mesmo modo, as estruturas não são apenas usadas pelas pessoas mas também são manipuladas conscientemente por elas. Para Bourdieu a estrutura e a sociedade são como uma língua, todas têm uma estrutura por trás que permitem sua utilização e representação. Ele diz que as estruturas são internalizadas nas pessoas, sendo a consciência individual um produto das estruturas. Para Bourdieu as coisas são sentidas enquanto para Giddens as pessoas sabem um pouco mais o que fazem (reflexividade – monitoramento: as pessoas pensam no que fazem).
    Giddens diz que as pessoas precisam de rotina para se sentirem seguras no mundo, pois a rotina tem a vantagem  de as pessoas não precisarem pensar no que irão fazer. Para ele tudo consiste em relações face-a-face que estão relacionadas entre si, sendo que quando se altera uma parte todas as outras são influenciadas, daí sua idéia de sistemas, onde a reprodução dos sistemas sociais nem sempre ocorre, pois não é funcionalista, não se tem facilidade de mudar as coisas. Do mesmo modo que para Bourdieu as estruturas estando internalizadas nas pessoas, faz com seja mais difícil ocorrer mudanças nas rotinas, é necessário que as pessoas usem as estruturas e assim reproduzam essas estruturas, essa utilização facilita o dia-a-dia.
    Bourdieu inaugura a teoria do habitus, que é uma estrutura externalizada, que consiste em disposições e esquemas de percepção, pensamento e ação, o habitus gera o sentido comum e uma certa arte de improvisação e sentido prático. O habitus é um sistema subjetivo mas não é individual das estruturas interiorizadas. A teoria de habitus parte do princípio que cada pessoa é moldada e se caracteriza socialmente. O habitus abrange a apreensão, o pensamento e as ações que são esquematizados dentro da formação social. Bourdieu dá o nome de esquemas de disposição, que podem ser interpretados como um sentido de orientação, que ajuda a pessoa a guiar-se nos diversos campos sociais. Esta teoria está em forte oposição com as idéias do homem livre, que decide e age livremente. O habitus é transmitido desde o nascimento através da socialização, isto é, depende fortemente da posição social e das condições gerais de vida da família. O habitus é incorporizado e torna-se algo evidente e “natural”. A relação entre habitus e campo social é muito estreita, uma vez que as estruturas incorporadas pelos indivíduos das diversas classes diferem bastante.
    Entretanto, Bourdieu fala de algo que está em toda parte e é ignorado: o poder simbólico, que é um “poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo o exercem" (O poder simbólico – p.8).
    Segundo ele, a análise estrutural seria capaz de analisar a apreensão de cada uma das "formas simbólicas", a partir do isolamento da estrutura imanente a cada produção simbólica, privilegiando as estruturas estruturadas (usando a lingüística saussuriana). A eficácia dos sistemas só é possível, porque eles próprios são estruturados. O poder simbólico constrói uma realidade.
    As relações de comunicação são, para Bourdieu, relações de poder determinadas pelo poder material ou simbólico acumulado pelos agentes envolvidos nas relações. Os "sistemas simbólicos" atuam como instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e conhecimento e asseguram a dominação de uma classe sobre outra a partir de instrumentos de imposição da legitimação, "domesticando" os dominados. Os "sistemas simbólicos" são produzidos e apropriados pelo próprio grupo, ou por um corpo de especialistas que conduz à retirada dos instrumentos de produção simbólica dos membros do grupo.
    As ideologias, segundo Bourdieu, são determinadas pelos interesses de classe e pelos interesses específicos daqueles que a produzem e pela lógica específica do campo de produção.
    A globalização envolve, entre outras coisas, um pouco de tudo isso: ideologia, “fim” das interações entre as pessoas (face-a-face), imposição de sistemas simbólicos de um grupo em outro, tendo como conseqüência a homegeinização da cultura, pois há uma “domesticação” dos dominados, como foi dito acima. Há também muitas mudanças no habitus das sociedades, pois todos começam a agir e pensar do mesmo modo e gostar das mesmas coisas, deixando seu habitus “para trás”.
    O multiculturalismo é um fenômeno mundial de transformações sociais e conseqüência de vários sintomas de origens raciais, migratórias e principalmente do questionamento por uma cultura mais justa e politicamente correta. O mundo pós-guerra buscando fugir do monoculturalismo, reivindica uma abertura igualitária e conquistas de fronteiras em grande escala no que diz respeito ao desenvolvimento de estudos, lingüística e artes. No Brasil na maioria das vezes o multiculturalismo foi discurso de reivindicações das minorias tidas como militância, que idealizavam uma sociedade que respeitasse as diferenças e não fosse necessariamente homogênea. No entanto, o governo e boa parte da sociedade não conseguiram aceitar tais diferenças e segregaram tais ideologias julgando um perigo à unidade nacional e à identidade do país.
    É inegável a pluralidade das identidades em via da globalização e devido a conquistas relativamente recentes que provocam hoje uma nova estética da política econômica e sociocultural do país, sustentando um aparente reconhecimento de direitos e colhendo os frutos da abertura multicultural. Porém a diversidade cultural é ainda desafio para a educação da língua, literatura e outros aspectos culturais. O fenômeno da globalização não significou o ir e vir de todas as idéias permitindo aos cidadãos uma realidade verdadeiramente igualitária para vivência de fronteiras em diferentes áreas, manifestações culturais e artísticas. Compreender a arte como parte da cultura é o mesmo que entender a cultura como algo intrínseco ao ser humano. Aquilo que nos distingue de outros animais. Somos diferentes pelas culturas onde nascemos, países em que vivemos. Somos iguais pela nossa determinação em sermos nós mesmos. Porém, devemos ver o mundo com os olhos alheios e não com os nossos. Segundo a globalização, é proibido nos vermos em nossa própria arte. Para nos sentirmos bem, e estar na “moda”, temos que assistir a filmes que roubam nossa subjetividade e massacram nossas culturas nacionais e locais.
    Bourdieu fala do cuidado que se deve ter ao aplicar idéias oriundas de um dado contexto cultural a outros, apontando para as suas implicações: riscos de ingenuidade e simplificação, além de inconvenientes. Bourdieu é defensor do movimento antiglobalização, para ele as relações de força entre os agentes sociais apresenta-se sempre na forma transfigurada de relações de sentido.
    A globalização decide o que e a quem importar, sufocando a espontaneidade e opondo-se a idéia de um mundo sem fronteiras, concentrando-se apenas no entusiasmo do comércio, na aquisição de tecnologia e grandes negócios. A globalização deseja e exige o lucro em todas as suas atividades. Impõe a uniformização do seres humanos onde todos devem ser iguais, vestir igual, comer hambúrguer etc., impõe também normas de comportamentos, valores morais, ideologias e gosto estético. É importante para a globalização do lucro destruir as culturas nacionais, bem como as culturas locais, ou seja, dizimá-las a qualquer custo. Ao destruir nossas culturas, destroem as nossas identidades. Isola-se o indivíduo para que ele perca sua individualidade, isso contrapõem a idéia de Giddens sobre tudo estar baseado nas relações face-a-face, mesmo este autor não sendo contra a globalização.
    Os que dizem estarem globalizando o mundo, socorrendo os países emergentes, tirando-os das crises e adaptando-os ao seu sistema monetário internacional, estão intensificando problemas já existentes como a pobreza.
    Um dos principais alvos de crítica de Bourdieu, foram os meios de comunicação, que estariam, segundo ele, cada vez mais submetidos a uma lógica comercial inimiga da palavra, da verdade e dos significados reais da vida. Para ele “esse poder simbólico que, na grande maioria das sociedades, era distinto do poder político ou econômico, hoje está concentrado nas mãos das mesmas pessoas que detêm o controle dos grandes grupos de comunicação, quer dizer, que controlam o conjunto dos instrumentos de produção e de difusão dos bens culturais."
    Bourdieu era um crítico da globalização financeira. Recusava a escolha entre a mundialização concebida como “submissão às leis do comércio” e a defesa das culturas nacionais ou de qualquer forma de nacionalismo ou localismo cultural. A ‘nova’ teoria de classes define a classe não só pela sua posição econômica, mas igualmente pelo seu consumo cultural. É o acesso à cultura e o dispor de capital cultural que estratifica uma sociedade. O capital cultural tem uma função central para a compreensão de estratégias de reprodução social das classes.
    No entanto, Giddens acredita que o Brasil está progredindo na tentativa de equilibrar o bem estar social com a evolução econômica, e que o país está deixando para trás o fantasma do passado, criando uma economia estável, competitiva num âmbito mundial. Para Giddens “todos os governos hoje em dia estão tentando encontrar uma relação diferente com a economia. Nos velhos tempos, os governos tentavam controlar as empresas diretamente. Agora, de maneira geral eles não fazem mais isso e o papel do governo é promover o investimento em pessoas, em infra-estrutura, em desenvolvimento e tecnologia”.  "Os governos dão as condições sociais para permitir o desenvolvimento de uma economia competitiva. Ainda existe um papel importante para o governo mas não é o mesmo e isso freqüentemente implica em mudanças na natureza do governo e do Estado porque em muitos países, inclusive no Brasil, o Estado se torna grande demais e burocrático".
    Para Giddens, o ideal seria os estados caminharem pelo meio, tentando equilibrar o estado que busca o sucesso econômico a todo custo com o estado que investe no bem estar social. No entanto, reconhece que o caminho para alcançar esse objetivo é complicado, e é mais fácil aplicar a terceira via em países do primeiro mundo.
    Para ele o que o Brasil pode fazer, "é aprender com os problemas e estratégias desenvolvidas em países com sistema assistencial para evitar alguns dos problemas e garantir que tenha um sistema previdenciário mais ativo e não passivo”. Para ele o impacto da globalização econômica, no caso da América Latina, a colaboração entre os países maiores do Cone Sul é crucial na promoção do desenvolvimento econômico e na proteção da democracia. Para ele os debates sobre o futuro do Mercosul são respostas apropriadas à globalização.
    É claro que as idéias podem ajudar a entrever saídas para grandes problemas de ordem mundial, e que existe o aspecto surpreendente de sociedades distantes e isoladas se tornarem próximas e acessíveis, mas é preciso prever onde terminam as influências positivas e onde começam as intervenções na própria identidade cultural, para que possamos dialogar contradições e termos nossa própria forma de enxergar e dizer o mundo.

Bibliografia:
     BOURDIEU, P. “Esboço de uma teoria da prática”, trad. Paula Montero. In Sociologia, org. por Renato Ortiz. São Paulo: Editora Ática, 1994 (1972)
     BOURDIEU, P. 1990 (1987), “Espaço social e poder simbólico”, In Pierre Bourdieu, Coisas ditas, trad. Cássia R. da Silveira e Denise Moreno Pegorim. São Paulo: Editora Brasiliense
     GIDDENS, A. A constituição da sociedade, trad. Por Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1989 (1984)
     LEFORT, C. “A troca e a luta dos homens”. In: As formas da história. São Paulo: Brasiliense, 1979
     www.terra.com.br – pesquisa: globalização, multiculturalismo e cultura
     www.terra.com.br – História – por Voltaire Schilling
     Jornal do Estudante – www.sociologia.hpg.ig.com.br
     Entrevista dada por Giddens ao De Olho no Mundo,  terça-feira, dia 29/07/2002
     Marco Weissheimer - O legado crítico de Pierre Bourdieu
     Caros Amigos – ano IV, número 38, maio 2000, Editora Casa Amarela, pag. 20 – “Globalitarismo e cultura” 

Trabalho Final de Sociologia Contemporânea – ano 2002

sábado, 24 de outubro de 2009

Resenha: Sociedades - Perspectivas Evolutivas e Comparativas (cap. I) Talccott Parsons

      No texto, “Sociedades – Perspectivas Evolutivas e Comparativas”, o objetivo do autor é explicar o sistema social, sendo este o principal subsistema de ação humana e sendo a sociedade um tipo especial de sistema social. Para alcançar esse objetivo, o autor esquematiza o conceito geral de ação humana, que é dividido em quatro subsistemas: o organismo, a personalidade, o sistema social e o sistema cultural.
      A partir daí, o autor conceitua sistema social e sociedade. Então ele mostra qual a influência que os subsistemas tem, ao serem ambientes para a sociedade, como: o sistema cultural como ambiente para a sociedade, tem como exigência funcional central das inter-relações (sociedade – sistema cultural) a legitimação da ordem normativa da sociedade; já, o principal problema funcional da relação entre sistema social e personalidade é a aprendizagem, o desenvolvimento e a manutenção da motivação para participar de padrões de ação socialmente valorizados e controlados; e a relação do sistema social com o organismo, começa pelas exigências físicas da vida orgânica.
      O autor também fala sobre a auto-suficiência da sociedade, seus componentes estruturais e como se diferem os subsistemas da sociedade. Com isso, fala da evolução da sociedade.

Resenha de Sociologia Contemporânea – ano 2002

Resenha: A construção social da realidade - P. Berger & T. Luckmann

      O texto trata do conhecimento que rege a conduta da vida cotidiana; para esclarecer esse conhecimento, o método usado é a análise fenomenológica. Essa realidade social da vida cotidiana é dividida entre um indivíduo e outro, num sistema de relação face a face (este é ‘’o’’ exemplo de interação social). Essa situação é a única que consegue reproduzir os sintomas e as situações que ocorrem no momento da interação entre os indivíduos. Como o outro é plenamente real, não se pode esconder as interpretações, os gestos e as “caretas”, principalmente no momento da conversa. Para essa interação é preciso de um sistema de sinais, na vida cotidiana o sistema de sinal mais importante é a linguagem, e sua compreensão é essencial para entender a realidade. A linguagem simbólica é capaz de transcender a realidade, por isso é um de seus componentes essenciais. O universo simbólico é um nível de legitimação, esses processos simbólicos mostram realidades diferentes das que compõe a experiência da vida cotidiana, eles são produtos sociais e tem uma história.
      Tudo que é feito pelo homem está sujeito a tornar-se hábito, este fornece a direção e a especialização da atividade humana. Esse processo de formação do hábito precede a institucionalização; esta ocorre sempre que existe uma tipificação recíproca de ações habituais entre tipos de atores (uma tipificação é uma instituição). A instituição, sendo um fato social, é coercitiva, coletiva e exterior ao homem. Então quando se desvia da ordem da instituição, afasta-se da realidade.

Resenha de Sociologia Contemporânea – ano 2002

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Resenha: “Os Alemães: A luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX” - Norbert Elias

      O autor tenta tornar compreensível a ascensão no nacional-socialismo e as guerras, os campos de concentração e o desmembramento da Alemanha e a violência na época de Hitler, mostrando assim, a formação do habitus alemão. Para mostrar essa formação do habitus e a mudança ocorrida no período de Hitler, o autor destaca quatro peculiaridades no processo de formação do Estado da Alemanha; o primeiro fala sobre a localização e as mudanças estruturais nos povos que falavam a língua germânica e passaram a falar o alemão, essa mudança deu-se através de conflitos com outras sociedades da Europa; o segundo processo de formação do Estado fala sobre o papel central das lutas pela eliminação entre grupos, um terceiro processo foi o fim do Reich de Hitler, pois na Alemanha aparecem inúmeras rupturas e descontinuidades em sua formação e o fim de Hitler significou uma ruptura no desenvolvimento da Alemanha; e o quarto processo é o de incorporação de modelos militares no habitus alemão, pela classe média.
      No desenvolvimento do Estado Alemão prevalecem os modelos militares de comando e obediência e não as formas de negociação e persuasão dos modelos urbanos. Fica claro que a formação do Estado alemão foi muito influenciada e conseqüentemente prejudicado pelas guerras e principalmente pelas derrotas nessas guerras. Essas lutas que fizeram parte da formação do habitus alemão são uma forma de influência de instituições na formação do Estado alemão.
      Mesmo com a derrota nas duas guerras mundiais a Alemanha (Ocidental) pôde levar uma vida como um próspero Estado industrial, devido a seu padrão de industrialização.

Resenha Sociologia Contemporânea – ano 2002

Resenha: A representação do eu na vida cotidiana (cap. I) – Erving Goffman

     Numa sociedade, um indivíduo é o ator e representa papéis de acordo com o momento, com o “público”, e com o cenário que está. Quando isso ocorre, necessita-se que o público acredite no que pretende passar o ator. Quando ocorre do próprio ator não acreditar no que faz ele é chamado de “cínico” e quando ele está convencido de seu ato é chamado de “sincero”. Numa representação, a fachada é um componente importante, pois, por exemplo, quando um ator representa algo num cenário, não conseguirá convencer um público, com essa mesma representação em outro cenário; além dessa fachada (ambiente), há a fachada pessoal (vestuário, sexo, idade, etc.) que é conveniente se dividir em aparência (estímulos que revelam o status social do ator) e maneira (estímulo que serve para nos informar sobre o papel que o ator deseja representar); espera-se que haja uma compatibilidade entre esses estímulos, porém podem se contradizer, uma à outra. Para mostrar algumas coisas que podem passar despercebidas, o ator usa sinais no momento da atuação. “A representação é “socializada”, moldada e modificada para se ajustar à compreensão e às expectativas da sociedade em que é apresentada”. Os atores tendem a oferecer ao público uma impressão que é idealizada de maneiras diferentes. Ao fazer uma representação, um ator esconde prazeres e sua condição financeira. Como o público muda, garante-se ao indivíduo que ele não representará papéis para as mesmas pessoas. Pode ocorrer de o ator ser mal interpretado pelo público, este dando ênfase à “gestos” que não eram significativos para o ator. Uma realidade causada por uma representação é muito delicada, e qualquer contratempo pode quebrá-la. O público, também, corre o risco de ser enganado pelo ator; o indivíduo que mente uma vez terá seus atos desacreditados, contestados sempre, podendo ter sua dignidade destruída.

Resenha Sociologia Contemporânea – ano 2002

Resenha: “Espaço social e poder simbólico” – Pierre Bourdieu

     Nesse texto, Bourdieu sempre coloca a oposição entre objetivismo e subjetivismo, que sempre está presente nas ciências sociais, sendo sua intenção mais constante superar essa oposição. Essa diferença é resultado do fato de as classes serem entendidas como grupos reais. A construção das ciências sociais são construções feitas por atores da cena social. A construção dos grupos sofrem influência do espaço social (que pode ser aproximado ao espaço geográfico), quanto mais próximos os indivíduos estiverem, em relação ao espaço social, mais sucesso terá a construção de um grupo. Um grupo só existe quando há pessoas que falam que ele existe e quando ele mesmo fala que existe, e acredita-se nisso. A sociologia é feita da construção de visões de mundo, essas são diferentes dependendo do ponto de vista de cada indivíduo, que depende do espaço social onde está o agente. As representações dos agentes mudam conforme a posição e o habitus, que é adquirido ao longo de experiências no mundo social. O principal fator variante de percepções é o espaço social que pode ser construído de diversas maneiras, dependendo de diferentes princípios de visão e divisão, e apresenta-se na forma de agentes dotados de propriedades diferentes e sistematicamente ligadas entre si; essas propriedades funcionam como signos, na própria realidade da vida social e as diferenças funcionam como signos distintivos; com isso, percebe-se que o mundo social apresenta-se como um sistema simbólico e o espaço social funciona como um espaço simbólico. Desse modo, o mundo social é aprendido como produto de uma dupla estruturação: do lado objetivo ela é socialmente estruturada, pois as propriedades adquiridas pelos agentes e pelas corporações apresentam combinações desiguais; do lado subjetivo, é estruturada pois os esquemas de percepção e apreciação mostram o estado das relações simbólicas. Portanto, o mundo social depende das lutas entre agentes que estão equipados de modo desigual, para alcançar uma visão absoluta; e o poder simbólico pode se tornar um poder de constituição. Assim, para mudar o mundo é preciso mudar os pontos de vista, as maneiras de construir o mundo.

Resenha Sociologia contemporânea – ano 2002

domingo, 18 de outubro de 2009

Resenha: “Esboço de uma teoria prática” – Pierre Bourdieu

     Em seu texto, Bourdieu começa definindo os três modos de conhecimento, que são: o conhecimento fenomenológico, que mostra a primeira experiência do mundo social como verdade (família, mundo natural), o conhecimento objetivista, que constrói relações objetivas, que estruturam as práticas e as representações das práticas, com isso rompe com o conhecimento primeiro (fenomenológico), e o conhecimento praxiológico, que tem como objeto não só as relações objetivas, mas também as relações dialéticas entre as estruturas e as disposições estruturadas. Para ele nada se defini por si só, tudo está relacionado. Para explicar o conhecimento ele usa a análise lingüística de Saussure (a forma estrutural tem influência da lingüística), pois a estrutura e a sociedade são como a língua, elas tem uma estrutura por trás que permite sua utilização e representação, porém a vida real não é organizada, sendo difícil de seguir as estruturas. Para Bourdieu a consciência individual já é produto de estruturas, ele começa a questionar, pois as pessoas não respeitam as estruturas. As pessoas não apenas usam as estruturas, mas também às manipulam conscientemente; para ele, no estruturalismo falta uma teoria de ação, pois é preciso explicar não somente a capacidade das pessoas falarem muitas frases, mas também como as pessoas usam frases adequadas para cada situação, assim saber como as pessoas usam as estruturas. Bourdieu diz que é preciso abandonar as teorias que tornam a prática como uma reação mecânica, determinada pelas condições antecedentes e preestabelecidas, como os modelos, as normas e os papéis; para ele a prática é necessária e relativamente autônoma em relação à situação considerada, porque ela é o produto da dialética entre uma situação e um habitus. O habitus é a estrutura externalizada, consiste em disposições (orientações para resolver problemas) e esquemas de percepção, pensamento e ação; ele gera o sentido comum, gera uma certa arte de improvisação e sentido prático. É importante relacionar o habitus com a situação com que a pessoa se encontra. Também é importante saber como as práticas são passadas de geração a geração, para ele isso se deve à continuidade e regularidade que o objetivismo concede ao mundo social, atualizando as práticas estruturadas segundo os princípios de cada um. Definindo as relações entre classes, habitus e individualidade orgânica, considera-se o habitus como sistema subjetivo mas não individual das estruturas interiorizadas, esquemas de concepção e de ação, comum à um grupo ou classe, estabelecendo uma relação de homologia entre os entre os habitus de um mesmo grupo.

Resenha de Sociologia Contemporânea – ano 2002

Resenha: “As origens sociais da ditadura e da democracia” – Barrington Moore Jr.

     O começo dos Estados Unidos foi tardio, comparado aos países europeus, e daí vem que nos Estados Unidos não existe uma sociedade agrária forte para ser derrubada, é por isso que lá não houveram revoluções comparáveis às revoluções na Europa (Puritana, Francesa,...), porém houveram dois grandes movimentos: a Revolução Americana e a Guerra Civil. Ambos movimentos foram importantes para os Estados Unidos tornarem-se a principal democracia do mundo. Haviam (por volta de 1860) três formas de sociedades: o Sul, com a cultura de algodão baseada na escravatura, no Nordeste desenvolveu-se o capitalismo industrial, que se relacionava com a sociedade agrícola com mão-de-obra familiar do Oeste. Essa união entre Norte e Oeste criou uma sociedade e uma cultura que se opunha cada vez mais ao Sul, principalmente por causa da escravatura. Assim, pode-se dizer, que as causas da guerra se encontrava no desenvolvimento de sistemas econômicos diferentes, que levaram a civilizações capitalistas diferentes, com diferentes posições em relação à escravatura. Porém, a Guerra Civil não foi uma revolução; depois dela o capitalismo industrial avançou incomensuravelmente,  mas não por conseqüência, exclusiva, da guerra. Se o Sul tivesse ganho a guerra, os Estados Unidos poderia ser hoje um país como a Rússia do século XIX, mas com a vitória do Norte a industrialização se desenvolveu e dominou quase todo o mundo, e a democracia política se fortificou. Esses acontecimentos colocou a nação americana na liderança do avanço capitalista.
     Assim, pode-se perceber três vias que levaram ao mundo moderno: as revoluções burguesas que culminaram na forma ocidental de democracia, as revoluções conservadoras, que terminaram no fascismo e as revoluções camponesas que levaram ao comunismo.

Resenha de Sociologia Contemporânea – ano 2002

Resenha: “Elementos da teoria da estruturação” – Anthony Giddens

     Em seu texto, Giddens deixa claro que seu objetivo na formulação da teoria da estruturação é acabar com o estabelecimento de impérios (as sociologias interpretativas tem base num imperialismo do sujeito, enquanto o funcionalismo e o estruturalismo tem base num imperialismo do objeto social). De acordo com a teoria da estruturação as atividades sociais não são criadas por atores sociais, mas são sempre recriadas por esses mesmos atores, através dos meios em que eles se expressam como atores. A concepção de estruturação se constitui a partir da temporalidade e portanto da história. Para Giddens, o conhecimento mútuo incorporado em encontros, não está diretamente relacionado na consciência dos atores, grande parte deste conhecimento é prático por natureza. Os agentes competentes esperam que os outros atores sejam sempre capazes de explicar a maior parte do que fazem, quando lhes é perguntado. Os motivos para executar uma ação (motivação) está ligado mais ao potencial para se executar a ação do que no modo como se executa a ação. Uma característica importante da conduta humana é a motivação inconsciente; e a noção de consciência prática é fundamental para a teoria da estruturação. Agência não se refere às intenções que as pessoas tem de fazer as coisas, mas à capacidade que elas tem de realizar essas coisas. Os atores podem não ter intenção de fazer algo, e fazer, como é colocado no texto: se eu falar e escrever bem um língua (ato intencional), eu ajudo para sua reprodução (ato sem intenção). Ser agente é ser capaz de exibir vários poderes de causa, inclusive o de influenciar as manifestações dos outros, ele deixa de ser agente quando perde a capacidade de exercer poder.

Resenha Sociologia Contemporânea – ano 2002

Resenha – Aparelhos Ideológicos de Estado – Louis Althusser

     Para tratar dos Aparelhos Ideológicos de Estado, o autor, que faz parte da corrente estruturalista, baseia-se nas idéias de Marx, mostrando a relação entre as classes que dominam (burguesia) e as classes dominadas (proletários) e suas funções na sociedade. Para isso, fala sobre a reprodução das condições de produção, que consiste em reproduzir as forças produtivas e as relações de produção já existentes; onde a força de trabalho é assegurada pelo salário. A qualificação da força de trabalho se dá cada vez mais, fora da produção, através da escola, onde se aprende a ler, escrever e principalmente as regras do bom comportamento. Então aparece a distinção entre Aparelho (repressivo) de Estado e Aparelhos Ideológicos de Estado, onde o primeiro funciona predominantemente através da repressão enquanto o segundo funciona predominantemente através da ideologia; os dois “formam” o Aparelho de Estado.
     Assim, a reprodução das relações de produção é assegurada, principalmente, pelo exercício do poder do Estado nos Aparelhos de Estado.

Resenha Sociologia Contemporânea – ano 2002

sábado, 17 de outubro de 2009

Trabalho Final de Sociologia Clássica – Surgimento da Sociologia, Weber, Marx, Durkheim

INTRODUÇÃO
    No trabalho que será apresentado, num primeiro momento, tentarei mostrar como surgiu a Sociologia como uma ciência, e em qual contexto histórico isto ocorreu, quais são as reações e as conseqüências notáveis. Num segundo momento abre-se um debate que contrasta os três grandes pensadores da sociologia, Marx, Weber e Durkheim, mostrando no que influenciam e como são influenciados, também mostra suas semelhanças e diferenças. Dentro desse debate, sempre será citado algum outro autor, mas considerei com maior importância os três citados acima. Concluindo, o trabalho em geral mostra um pouco da Sociologia Clássica.

O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA
    O período que constitui o desenvolvimento dos elementos constitutivos do pensamento sociológico vai de 1830 a 1900 (aproximadamente), esse pensamento tem origem na filosofia moral, que foi influenciada por fatores históricos importantes da Europa dos séculos XVIII e XIX, onde ocorreram as Revoluções Industrial e Francesa (que tem em comum a individualização, generalização e abstração) e a Reforma Protestante. A partir do século XVIII, não é mais possível falar em filosofia social, como antes, e sim em sociologia, que está sendo formulada neste século.
    Esses acontecimentos foram importantes para a ruptura com o “antigo” ou “velha ordem” (esta, apoiava o parentesco, a terra, a classe social, a religião a comunidade local e a monarquia) e também para a separação do Estado do Clero. Antes a monarquia era uma comunidade e não uma sociedade, a passagem da comunidade para a sociedade é marcada pela impessoalidade da interação das pessoas na sociedade, na comunidade há um caráter de diferenciação (brasões / bandeiras), enquanto que na sociedade há uma homogeneização (cidadania); na comunidade não existe a idéia de indivíduo, esta idéia aparece na sociedade, vem da descoberta do átomo, que é a “menor” partícula indivisível, como o indivíduo o é para a sociedade; o que identifica e é comum em todos os indivíduos é a razão (capacidade de pensar por si próprio). A homogeneização se dá no sentido de que todos são cidadãos com os mesmos direitos e deveres, tratando-se impessoalmente no plano jurídico. No processo de surgimento do pensamento sociológico a industrialização é um elemento fundamental, pois é nela que se estabelece as relações sociais que movimentam a sociedade.
    Existem cinco idéias principais, que constitui o caminho para seguir a evolução da sociologia, são elas: comunidade, autoridade, status, sagrado e alienação. São elas que dão coerência e continuidade à tradição sociológica, e é em torno delas que surgem os debates, porém não representam toda a sociologia moderna. Moderno é tudo aquilo que é baseado no racionalismo, e todo Estado moderno é pensado em defesa dos indivíduos.
    Alguns conceitos “surgem”, para diferenciar a sociologia das outras ciências sociais: estrutura, individualidade, processo, desenvolvimento, função, etc. Cultura que, generalizando, significa o conjunto de feitos e coisas produzidas por todos; dinâmica social que dá idéia de mudança social (movimento) e estática social (permanência), que ocorre através do controle social (censura), também são conceitos importantes.
    Na estrutura conceitual da sociologia contemporânea e em seus pressupostos fundamentais, aparece um conflito entre o tradicionalismo (conservadorismo) e o modernismo. O conservadorismo foi o primeiro grande ataque ao modernismo e a seus elementos políticos, econômicos e culturais. A sociologia pode ser considerada conservadora pois reage ao racionalismo, no século XIX, onde existem três correntes ideológicas: o liberalismo, que tem uma devoção pelo indivíduo, em especial por suas direções políticas, civis e sociais; o radicalismo, que é uma doutrina revolucionária milenarista nascida da fé no poder absoluto; e o conservadorismo, sua marca é a tradição, que tem prioridade na sociedade em relação ao indivíduo.
    O surgimento do que é chamado “a escola histórica das ciências sociais”, se fundou sobre o emprego de materiais históricos e institucionais em sua maioria. A sociologia surge como uma reação ao mundo que se individualiza, existem três processos importantes que leva a isso: individualização, abstração e generalização (que são as características comuns das Revoluções Industrial e Francesa, acima citadas). A modernidade efetivamente muda, contrasta o antigo e o novo, dando uma grande mudança no comportamento da humanidade. Esta é uma primeira versão de teoria social, que desvenda conflitos sociais que não estão visíveis.

OS PENSADORES
    Pode-se dizer que a obra de Weber, juntamente com a de Marx e a de Durkheim, é um dos fundamentos da metodologia da sociologia moderna. Foi a partir da obra realizada por eles, que a sociologia moderna se configurou como um campo de conhecimento com métodos e objetos próprios. A semelhança que une os três autores é a ciência, ambos são filhos do Iluminismo, e buscam uma sociedade harmônica e sua autonomização. Os elementos presentes em todas as obras desses autores são: em Marx a alienação, em Weber a racionalização e em Durkheim é a anomia (que é a ausência de regras).
    Weber e Durkheim pertenceram à mesma geração e foram colegas de profissão, tendo em comum a temática religiosa como chave fundamental de análise sociológica; em relação a Marx, que é de uma geração anterior, porém da mesma nacionalidade de Weber (Alemanha), ao contrário de Durkheim que era francês, ambos analisaram o capitalismo e discutiram a questão do Estado Nacional, a partir da mesma Alemanha do século XIX, com suas peculiaridades que a distinguiu dos demais países europeus, devido à sua unificação tardia. A questão do Estado coloca Marx e Weber em campos opostos; Marx tinha uma visão negativa da política, o Estado deveria ser gradativamente extinto, enquanto Weber, com uma perspectiva positiva da política, defendia a constituição de uma burocracia permeada por um eficiente mecanismo de controle democrático.
    A alienação, que Marx tem como tema, pode ser exemplificada: numa mesa o conjunto de relações está alienado, só se enxerga o produto pronto, dessa forma Marx entende a sociedade de forma alienada, ele presencia a crise de super produção, contrapondo com Weber, este presencia o capitalismo mais avançado em fins do século XIX e Durkheim que vê uma grande mudança na França, ele mesmo é um produto dessa mudança, então ele se preocupa em explicar de maneira geral essas mudanças.
    Em Weber, a emoção é imprevisível, já a razão é previsível, e é encontrada nos valores morais de uma sociedade, os valores não são objetivos, e sim subjetivos, enquanto para Durkheim os valores são objetivos, pois são fatos sociais (coisas).
    Durkheim estuda o direito, que já está lá, então pode ser previsto, é no direito que encontra a regulamentação para a vida social (leis). Durkheim é o homem da previsibilidade a partir do empírico e daí chega às análises, Weber parte do substrato cultural para poder fazer alguma previsão certa. Durkheim e Weber vão buscar na religião a essência do conhecimento, ao contrário de Marx, que diz que a religião tem função social, pois opera no acobertamento das relações sociais. O asceticismo cristão, para Weber, é o agente dinâmico em sua relação com o mercado da vida, ao que parece transformando-o intrinsecamente, ao contrário do que dizia Marx no Manifesto, onde o sentimento religioso e o prestígio de tudo o que é sagrado é violado pela ação do capitalismo. Para Durkheim a religião gera coesão social, pois ela é um fato social. A concepção de fato social é diferente para Weber, para ele a somatória das ações individuais criam os fatos sociais.
    Marx não concorda com a idéia de que a emancipação política (cidadania) reivindicada pelos judeus só se dará quando judeus e católicos deixarem suas diferenças de lado, pois ele acha que isso é emancipação humana e não política, não tendo uma noção de Estado (contrapõe Bauer, no texto “A Questão Judaica”). Para ele o Estado é simultaneamente uma colossal superestrutura do regime capitalista como poder organizado de uma classe social em sua relação com os outros.   
    Para Durkheim a humanidade avança no sentido de seu gradual aperfeiçoamento, governada por uma força rígida: a lei do progresso, ele analisa na sociedade os efeitos que as mudanças acarretam. Para Durkheim o sistema é um todo que funciona integrado, isto é, cada elemento deste sistema tem uma função, e os critérios para regulamentar esse sistema é baseado no direito, pois para ele toda sociedade é normatizada e quem segue essas normas “se dá bem”. Enquanto para Marx o direito é um “véu cinza” que tapa a sociedade protegendo a burguesia.
    Em Weber uma sociedade pode ser racional tendo valores subjetivos, num primeiro momento o que faz essa mediação entre indivíduo e sociedade são as instituições, a ação racional é pensada tanto no pessoal quanto no individual. Para Marx a vida social é o reflexo das relações materiais, concepção materialista, sendo a mercadoria a síntese das relações sociais.
    Para Marx a classe social é o sujeito da história, e a desigualdade tem origem na propriedade, sendo esta um elemento fundamental na discussão marxista, pois a propriedade é alienável e leva à alienação, esta significa a separação do homem com ele próprio, do seu semelhante e da natureza. Essa separação do homem, também pode ser vista em Weber, quando ele fala, sobre a autonomização e racionalização do homem do meio natural e do meio social, aumentando o grau de consciência e reflexividade, através disso a ação de cada indivíduo tende a alterar o meio e cada vez mais essa ação é consciente e servem para melhorar e manter a sociedade.
    A divisão do trabalho para Durkheim leva a solidariedade, isto é, agir homogeneamente a partir dos sentimentos. Enquanto a divisão do trabalho para Durkheim gera solidariedade social, para Marx a idéia é contrária, para ele a divisão do trabalho aparta o homem de seu meio e então gera alienação.
    Weber, sobre influência de Marx, propôs verificar a capacidade que teria o materialismo histórico de encontrar explicações adequadas à história social, especialmente sobre as relações de infra-estrutura e a superestrutura da sociedade.
    A preocupação de Weber em suas obras, quando discute os estudos sobre religiões, sua análise do surgimento do capitalismo, seu estudo sobre poder e burocracia, seus escritos metodológicos e sua sociologia do direito, é a racionalidade. Para ele a sociologia é a ciência que pretende entender e interpretar a ação social, para explica-la em seu desenvolvimento e efeitos, observando suas regularidades que são expressas na forma de usos, costumes e situações de interesse. O conceito de ação social é o mais importante na sociologia de Weber, e ação social é uma conduta humana dotada de um significado subjetivo. Para Durkheim o fato social (que é coercitivo e exterior ao indivíduo) influi na ação social, o indivíduo é a sociedade (sui generis).   
    Marx acreditava que a razão era não só um instrumento de apreensão da realidade, mas, também, de construção de uma sociedade mais justa, capaz de possibilitar a realização de todo o potencial existente nos indivíduos. Porém, suas experiências de desenvolvimento tecnológico e das revoluções políticas, alimentaram sua crença no progresso em direção a uma liberdade.

CONCLUSÃO 
    Conclui-se através do trabalho e do conhecimento que foi adquirido durante o curso, que Durkheim, Marx e Weber, foram e continuam sendo muito importantes para a formação da sociologia, e também nos dias de hoje ainda são muito usados e seus temas muito discutidos, por isso são considerados clássicos. As idéias de cada um são opostas, porém uma não pode negar a outra, mas sim uma completar a outra.
    Do ponto de vista da produção sociológica contemporânea, a herança deixada por Weber, Marx e Durkheim foram proveitosos, apesar de ser indiscutível a grandeza da obra desses autores, pode-se dizer que nem todas as questões “previstas” ocorreram.
    A sociologia, como surge com a busca de soluções às questões nascidas com o capitalismo, e também em função dos caminhos que a ciência vinha abrindo, tem como marca buscar respostas aos problemas que surgem do próprio desenvolvimento social.

BIBLIOGRAFIA 

  • Durkheim, E. “As regras do método sociológico”, coleção a obra prima de cada autor 63, Editora Martin Claret, 2001, SP.
  • Durkheim, E. “Sociologia da religião e teoria do conhecimento” In: José A. Rodrigues (org), Émile Durkheim Coleção Grandes Cientistas Sociais, n 1, 9a. edição, 3a. reimpressão, 2000
  • Durkheim, E. “A divisão do trabalho social”. Lisboa, 1985
  • Dahrendorf, R. “A origem das desigualdades entre os homens” In: Ensaios de teoria da sociedade”. São Paulo, Editora USP, 1974
  • Lemert, C. “Social theory: its uses and pleasures” e “Modernity’s classical age: 1848 – 1919” In: Social theory: the multicultural & classic readings, 1993
  • Marx, K. Teses sobre Feurbach, coleção Os Pensadores, 1a. edição, julho de 1974
  • Marx, K. “A questão judaica”, 2a. edição, Editora Moraes, 1991, SP
  • Marx, K. “O manifesto comunista – 150 anos depois”, Karl Marx e Friedrich Engels e Vários comentadores, Daniel Aarão Reis Filho (org), RJ: Editora Contraponto; SP: Fundação Perseu Abramo, 1998
  • Nisbet, R. “The two revolutions” e “The unit-ideas of sociology” In: The sociological Tradition, New York: Basic¸ Books, 1966
  • Quintaneiro, Tânia “Um toque de clássicos: Durkheim, Marx e Weber”, Tânia Quintaneiro, Maria Ligia de Oliveira Barbosa, Márcia Gardênia de Oliveira, BH, Editora UFMG, 1995, 4a. reimpressão
  • Souza, J. “A modernização seletiva – Uma reinterpretação do dilema brasileiro”, Editora UNB,  capítulo 1
  • Weber, M. “Ciência e Política: duas vocações”. Editora Cultrix. 2000, 16a. edição, SP
  • Weber, M. “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, coleção a obra prima de cada autor 49, Editora Martin Claret, 2001, SP.
  • Weber, M. “Religião e racionalidade econômica”. In: Gabriel Cohn (org). Coleção Grandes Cientistas Sociais, n13, 7a. edição, 2a. reimpressão, 2000, SP, Ática

Trabalho Final de Sociologia Clássica – ano 2002

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Prova de Sociologia Clássica – A Divisão do Trabalho Social – Émile Durkheim

Questão 1 – Qual é a função da divisão do trabalho.
    Pode-se considerar a divisão do trabalho sob um novo aspecto; sendo assim os serviços econômicos que ela proporciona são de menor importância em relação ao efeito moral que produz, e sua verdadeira função é criar entre duas ou mais pessoas um sentimento de solidariedade.
    Um bom exemplo é a divisão sexual do trabalho, um homem e uma mulher buscam a paixão, um do outro, pelas desigualdades, se complementando, e não por serem semelhantes, assim a divisão sexual do trabalho é a fonte da solidariedade conjugal. Se os próprios sexos não tivessem se separado totalmente, toda uma forma de vida social deixaria de existir. Pode ser que a utilidade econômica da divisão do trabalho resulte disso, mas ela ultrapassa o campo dos interesses econômicos, pois ela consiste no estabelecimento de uma ordem social e moral sui generis.
    O efeito mais notável da divisão do trabalho não é que aumente o rendimento das funções divididas, mas as tornam solidárias. Desse modo, sua função não é simplesmente melhorar as sociedades existentes, e sim, tornar as sociedades possíveis.
    Os indivíduos não são solidários não por um curto espaço de tempo, mas por muito além.
    A imagem do que nos completa passa a integrar a nossa consciência, de modo que não podemos mais ficar sem ela. A solidariedade não pode existir entre duas pessoas, a não ser que as imagens de cada um se completem com a do outro.
    A divisão do trabalho é a fonte da solidariedade social, sua contínua distribuição, com a conseqüente, solidariedade social, torna-se a causa do crescimento e da evolução do organismo social. Com base nisso, pode-se dizer que a divisão do trabalho garantiria a coesão social, determinando as características fundamentais da constituição da sociedade.

Questão 2 – Por que, para Durkheim, ocorre a preponderância progressiva da solidariedade orgânica em relação a solidariedade mecânica?
    No início a solidariedade mecânica era a única, mas progressivamente perde espaço, tornando, a solidariedade orgânica, preponderante. Porém se a maneira dos homens serem solidários muda, a estrutura da sociedade não pode deixar de mudar.
    Numa organização, como a horda (massa totalmente homogênea), comporta apenas a solidariedade que deriva das similaridades, assim só abrangem elementos homogêneos, pois o tipo coletivo é muito desenvolvido. A solidariedade é mais fraca quanto mais heterogêneos forem os clãs. Este tipo de sociedade constitui o lugar típico da solidariedade mecânica. E onde a personalidade coletiva é a única, a propriedade só pode ser coletiva; ela só poderá ser individual quando o indivíduo tornar-se um ser pessoal e distinto, principalmente como elemento da vida social.
    Com a divisão do trabalho surge uma centralização e um poder absoluto, as relações não se diferenciam daquelas entre o proprietário e a coisa. A solidariedade permanece mecânica, a diferença é que ela não liga o indivíduo ao grupo, mas àquilo que é sua imagem. É um sistema de segmentos homogêneos e semelhantes entre si, caracterizando uma solidariedade mecânica.
    Onde a solidariedade orgânica é preponderante, a estrutura das sociedades não é formada de segmentos similares e homogêneos, mas sim por um sistema de órgãos diferentes, cada um tendo papel especial e formado de partes diferenciadas. Os elementos sociais não são da mesma natureza que na solidariedade mecânica, pois não estão dispostos da mesma forma. Um órgão central exerce a ação moderadora sobre o resto do organismo; desse órgão dependem os outros, assim como ele depende dos outros. Não tendo mais nada de temporal e humano, só existindo a diferença de grau entre ele e os outros órgãos. Esse tipo social só pode se desenvolver à medida que o outro desapareça. O meio natural necessário não é mais o meio onde nasceu, mas o meio profissional. Não é mais a consangüinidade do indivíduo e sim a função que ele desempenha. Não há divisão do trabalho que se possa adaptar à organização já existente, com isso, a antiga estrutura deve desaparecer.
    Por isso, com a divisão do trabalho, ocorre a preponderância progressiva da solidariedade orgânica em relação à solidariedade mecânica. 

Questão 3 – Como Durkheim definiu a divisão do trabalho anômica?
    Quando a divisão do trabalho não produz a solidariedade, é porque a relação dos órgãos não estão regulamentadas, estando, então, num estado de anomia. Pois as regras do método são para a ciência o que as regras do direito são para o comportamento. Porém um estado de anomia não é possível, sempre que os órgãos solidários estejam em contato prolongado, já que o corpo de regras é a forma definida que assumem as relações que se estabelecem entre as funções sociais. Uma vez que o trabalho esteja dividido e como as regras precisam umas das outras, tendem naturalmente a diminuir a distância que as separam.
    Conforme o mercado se amplia são instauradas algumas indústrias, que servem para transformar a relação entre patrões e operários. Assim o trabalho da máquina substitui o do homem, o da oficina substitui o da manufatura; o operário tem regras a seguir e fica o dia todo longe da família e do empregador. Essa nova vida industrial exige uma nova organização. Por isso a divisão do trabalho foi acusada de diminuir o indivíduo à condição de máquina. Assim se a moral tem com objeto o aperfeiçoamento do indivíduo, não pode deixar que ele se arruíne; e se tem por fim a sociedade, não pode deixar que se esgote a fonte de vida social.
    Contrariamente, a divisão do trabalho não produz esses fastos em virtude de uma imposição da natureza, mas apenas em circunstâncias excepcionais. A divisão do trabalho supõe que o trabalhador não perde de vista seus colaboradores, mas age sobre eles e sofre sua ação. Assim, não é uma máquina que repete movimentos dos quais não sabe a direção, ele sabe que eles tem um destino. O trabalhador sente e serve para alguma coisa, é um ser inteligente. Sendo, a divisão do trabalho, a fonte de solidariedade.

Questão 4 – Como caracterizar a solidariedade mecânica em contraste com a solidariedade orgânica?
      O que caracteriza a solidariedade mecânica é que ela é um sistema de segmentos homogêneos e semelhantes entre si, esta solidariedade corresponde ao direito repressivo cuja ruptura constitui o crime. Já a solidariedade orgânica, resulta da divisão do trabalho.
    A solidariedade mecânica pode ser simbolizada pelo direito penal, pois as características da pena derivam da natureza do crime, assim suas regras exprimem similaridades sociais. Neste caso de solidariedade, os membros do grupo se atraem por serem semelhantes e são ligados à sociedade que eles formam, não sendo atraídos apenas pelo outro, mas também à sua pátria. Contrariamente a sociedade se esforça para que os cidadãos apresentem as semelhanças, para assim ocorrer à coesão social.
    Existem nas pessoas duas consciências: uma contém os estados pessoais que nos caracterizam, representando e constituindo a personalidade individual, e a outra os estados que abrangem são comuns a toda sociedade, o que representa o tipo coletivo, sem o qual a sociedade não existiria; quando esta rege nossa conduta, levamos em conta os fins coletivos. Mesmo assim, essas duas consciências estão ligadas entre si formando uma só, havendo um único substrato orgânico para elas, portanto elas são solidárias, resultando a solidariedade mecânica. Ela não é somente uma ligação do indivíduo ao grupo, mas também constitui a harmonia entre eles.
    A parcela que a solidariedade mecânica tem na integração geral da sociedade depende da grande extensão da vida social abrangida e que regulamenta a consciência comum. A importância dessa solidariedade é medida pela parte do sistema jurídico que o direito penal representa.
    Ao contrário da solidariedade orgânica; enquanto a solidariedade mecânica implica a semelhança dos indivíduos, a solidariedade orgânica supõe que eles sejam diferentes. A primeira só é possível na medida em que a personalidade individual seja absorvida pela coletiva, e a segunda só é possível se cada um tiver uma personalidade individual. Na solidariedade orgânica a unidade do organismo é tanto maior quanto a individualização das partes seja maior.

Prova de Sociologia Clássica – ano 2002

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Trabalho de Sociologia (2002)

INTRODUÇÃO

A instituição social é algo que data de épocas longínquas, trataremos aqui de duas importantes instituições sociais: a linguagem e os segmentos sociais. Tanto os segmentos sociais quanto a socialização podem ser influenciadas pela globalização, que tem como característica central a instalação de uma mídia planetária cada vez mais poderosa, que mais parece uma determinação social. Esta globalização pode acabar com a individualidade – destruindo os segmentos sociais – e objetivar uma sociedade polarizada.

Assim, relacionaremos instituição social e globalização e os vários fatores que influem e determinam esses acontecimentos, e também sobre como o ser humano é criado, desde o nascimento, na sociedade em que se insere, e como a globalização mudou essas pessoas e seus relacionamentos com outras pessoas e com a sociedade e formaram-se seus conceitos sobre classe social.

DISCUSSÃO

A instituição social é um padrão de controle da conduta individual imposta pela sociedade. É considerada como uma entidade que tem vida própria e é praticamente imutável.

A linguagem humana pode ser definida como uma aptidão ou capacidade que se manifesta por meio de conjuntos organizados, esta por sua vez, é utilizada pela comunidade para a interação social. Do ponto de vista social, a linguagem caracteriza-se por um conjunto de hábitos aprendidos e até difíceis de mudar. Se a língua precisa ser aprendida é porque ela é uma convenção, resultante de um acordo subentendido entre os indivíduos, e adquirida por tradição. Por isso se diz que ela é um determinado tipo de instituição social e, sendo assim, é exterior ao indivíduo que não pode criá-la e nem modificá-la.

A estratificação social também é uma instituição. É ela quem decide – de acordo com as posses de cada indivíduo – o estrato social ao qual ele pertence. O que foge ao controle dessa instituição é a consciência de classe que cada um tem. Ás vezes, o indivíduo se identifica com um determinado estrato social, seja perla identificação intelectual, moral, religiosa ou qualquer outro tipo, que não seja o estrato correspondente ao seu nível financeiro.

O importante para a identificação da classe social na qual cada indivíduo se insere é o status que ele tem, ou seja, a classe está associada também ao poder e prestígio, segundo Elizabeth Both.

Em contrapartida, Octávio Ianni (ver parte de uma entrevista em anexo), com seu olhar marxista sobre a sociedade, pensa as classes sociais dividida em dois pólos distintos: a burguesia, que são os indivíduos globalizados e o proletariado que são os indivíduos não globalizados. “O centro do mundo não é mais voltado só ao indivíduo” (Octávio Ianni, 1995). Isso reflete uma mudança na consciência de classe: que antes dependia das relações de trabalho e depende agora somente dos meios globalizados que influenciam os indivíduos.

A globalização abriu uma diversidade de interpretações de mundo que antes era acessível a poucas pessoas. Preconceitos, sotaques, raças, não são tão importantes na globalização, pois o indivíduo não existe mais, apenas o coletivo. As relações sociais se tornaram mais intensas, porém não são mais interações do tipo face a face. Todos têm acesso aos diferentes tipos de mundo. A globalização aproximou mundos completamente opostos proporcionando um intercâmbio cultural.

Há muito a globalização se tornou algo comum, pois o Ocidente necessitava comercializar com o Oriente, havia também a necessidade de conquista de novos territórios e com isso acontecia a circulação de estrangeiros. Com tudo isso a globalização foi se tornando uma determinação social. É algo que se impõe constantemente aos indivíduos e os que não se submetem sofrem a força das normas e regras dela. Um exemplo disto é Cuba, um país socialista que está sofrendo a força das normas e regras da determinação social – globalizações – através do embargo econômico aplicado lá pelos Estados Unidos.

Do mesmo modo que “a criança é socializada para um mundo específico e uma individualidade determinada (Berger e Berger, 1997) a globalização é ensinada ao indivíduo desde a época em que se criou a necessidade da interação social com novos universos. A globalização nos foi ensinada, ou melhor, imposta assim como a socialização para um mundo específico e a individualidade é como os interesses de cada indivíduo. Essa imposição da globalização sobre a sociedade faz com se perca os valores culturais de uma região e uma homogeneização das características sociais do mundo.

Existem vários tipos de malhas da rede de relacionamentos:

· Estreita: quando o casal, por exemplo, vem de uma mesma comunidade e nunca se mudou de cidade, têm os mesmos amigos a vida toda. Aí há a segregação dos papéis feminino e masculino.

· Frouxa: quando o casal tem várias experiências; amigos diferenciados; mudaram-se de cidade, etc. Aí não há tanta segregação de papéis.

· De transição: Quando a malha estreita vai se tornando frouxa.

De acordo com essas malhas as pessoas têm diferentes visões da sociedade e da vida. As pessoas mais móveis, geograficamente, são mais ambiciosas em relação à ascensão social – por exemplo, os pais de uma malha frouxa não desejam que os filhos continuem no mesmo nível social (geralmente), mas que ascendam. “As pessoas têm necessariamente de fazer uso de suas experiências pessoais para alcançar uma definição sobre a estrutura de classe funcione; e as suas necessidades pessoais e seus desejos entram também nisto. Os conceitos de classe são usados para uma orientação geral na sociedade mais ampla, para posicionar os estranhos e para avaliar as próprias posições, bem como as dos outros” (Elizabeth Both, 1976).

Podemos estabelecer uma ligação entre Octávio Ianni e Elizabeth Both: depende das experiências pessoais a camada social na qual se inserirá o indivíduo. Quanto maior o número de experiências e mais frouxa dor a malha mais perto o indivíduo estará da globalização.

CONCLUSÃO

Nos parece que a globalização de Octávio Ianni é como que uma conseqüência da malha frouxa, ou seja, quanto mais experiências o indivíduo tem mais amplas são suas ambições em relação à ascensão social. De acordo com a quantidade de experiências do indivíduo é que ele próprio estabelece a camada social da qual compartilha valores; e quanto mais experiências, mais perto da globalização ele está e consequentemente, mais próximo da burguesia também (burguesia pensada como classe com mais status).

É praticamente impossível estabelecermos um critério universal para a conceituação das camadas sociais, pois as pessoas discordam profundamente em suas leituras das mesmas.

Enquanto a sociedade – para os indivíduos – é feita de estratificação social, a globalização organiza a sociedade em duas classes bem distintas (visão marxista).

O indivíduo adquire suas experiências através da própria individualidade determinada e também do mundo para o qual ele foi socializado, então a diversidade de critérios para camadas sociais é justificada pelas diferentes leituras das determinações e instituições sociais.

ANEXO

Estes depoimentos foram retirados de um debate entre Octávio Ianni (professor), Lobão (compositor) e Hermano Penna (cineasta), feito pela revista Caros Amigos e encabeçado por José Arbex Jr., com o título “Globalitarismo e cultura”

Aqui vamos colocar apenas os principais depoimentos de Octávio Ianni sobre globalização, que podem se relacionar, confirmando e as vezes contrariando, com a discussão feita.

“No mundo contemporâneo, há uma fabricação intensa e crescente de produtos culturais, das mais diferentes e diversos tipos, como mercadorias. Eles movimentam empresas, organizações, corporações. Como as corporações, em geral, são enraizadas em países que têm poder econômico e que dispõem de tecnologias, eles acabam se impondo no âmbito da produção cultural, inclusive avassalando as produções dos demais países. Os países mais pobres têm uma grande riqueza cultural, mas essa riqueza não pode fazer face à expansão avassaladora da indústria cultural organizada em termos de corporações. É claro que isso está criando um desafio importantíssimo, não só em termos das tradições culturais das diferentes nações, mas em termos de diferentes atividades culturais relativas ao que é a expressão das pessoas. Disso está resultando uma espécie de asfixia das criações culturais de diferentes setores, às vezes de um pequeno grupo, às vezes de uma nacionalidade, freqüentemente de nações. O que estamos vendo é uma espécie de “mcdonaldização”, uma expansão da Disneylândia como espírito da cultura de massa em escala mundial.”

“ De fato, não podemos afirmar que está havendo um processo de homogeneização. Há um predomínio, uma expansão crescente das atividades e produções de mercadorias culturais orquestrada por grandes empresas. Essas maiores empresas estão conseguindo inventar elementos culturais, engendrar produtos culturais. (...) Não há homogeneização, mas há uma expansão crescente daqueles que são mais poderosos na produção e difusão de valores culturais. Com a implicação, primeiro, de que as produções locais, regionais, de nacionalidade, de nações, ficam bloqueadas, impossibilitadas de se expandir, de se manifestar e de dar continuidade à sua potencialidade. E há outro problema: a cultura diz respeito à vida dos povos, dos indivíduos, é o momento essencial da constituição das pessoas. A cultura é a alma das coletividades. A cultura, em geral, é toda uma visão do mundo. Se o povo está impossibilitado de expressar a sua criatividade, as suas tradições, as suas ambições e utopias, não há dúvida que este é um grave problema. (...) ninguém, nenhum indivíduo, nenhum povo jamais é passivo em termos absolutos. Sempre recria, reinterpreta, sempre decodifica em outros termos. O problema é que o que chega, chega poderoso como avalanche, chega orquestrado, e esse é o grande desafio. O monopólio das tecnologias de comunicação, em âmbito global, exercido por uma poucas corporações, remete à famosa frase de McLuhan: os desenvolvimentos dos audiovisuais, das comunicações eletrônicas do mundo contemporâneo, é aí que vai se realizar a batalha decisiva pelas mentes e corações dos povos. E isso é grave. E o domínio dos oligopólios não deixa espaço para a disputa democrática, para a controvérsia, não há aberturas para que haja o exercício de um certo tipo de humanismo. O que existe é sexo e violência, estetização e sensualização das coisas, seja o que for, e nesse sentido temos então o empobrecimento sério da sensibilidade e da percepção das pessoas.”

“(...) Há uma agressiva expansão de produções culturais, essa fabricação enlouquecida de produtos culturais que é um desafio para todo mundo, para todos os povos. Mas cabe esclarecer o seguinte. Primeiro, vivemos sempre, desde os primeiros momentos da história da humanidade, e cada vez mais nos tempos modernos, um processo ou vários processos da maior importância de transculturação, e a transculturação, por princípio, é altamente positiva. A multiplicação de contatos, de diálogos, a absorção e a troca de elementos, isso é da maior importância. È altamente positivo que haja diálogo, intercâmbio, que não haja barreiras às criações culturais dos diferentes povos. O grande problema é que a produção cultural, por exemplo, do cinema brasileiro, literalmente não entra nos Estados Unidos, ou só entra em setores muito restritos. O cinema de outros povos e continentes tem uma possibilidade limitada de entrar na Europa. Os europeus, que estão com problemas com os americanos, também são resistentes às produções de outros povos. É nesse quadro de luta de interesses que se dá o problema de monopolização, de criação de barreiras, e portanto de intercâmbio que não é plural, que não é democrático. Esse é o grande problema: como quebrar esses monopólios, esses exclusivismos que bloqueiam a transculturação.”

“Vivemos num mundo em que a produção de mercadoria é um processo contínuo, crescente e avassalador. O capitalismo é um modo de produção de mercadorias, então estamos diante de uma situação que é realmente difícil: como defender a produção de bens culturais que tenham a ver com certo humanismo, uma certa pluralidade, uma certa inovação, uma certa vanguarda, sem ficar prisioneiro dessa condição que é a de produzir mercadorias? Aí entra o problema de como certas organizações, certos governos, eventualmente partidos, igrejas, podem ou não criar espaços, criar recursos que permitam que a criatividade tenha continuidade sem estar primária e fundamentalmente determinada pela condição de mercadoria.”

BIBLIOGRAFIA

- BERGER, P. e BERGER, B. (1997) – “O que é uma instituição social” e “Socialização: como ser membro de um grupo” in M.M. Forachi e J.S. Martins (orgs.) Sociologia e Sociedade, SP, Livros Técnicos e Científicos Ed.

- OCTAVIO IANNI, Teorias da Globalização, RJ, Civilização Brasileira, 1995. Capítulo (Metáforas da Globalização”

- ELIZABETH BOTH – Famílias e redes sociais, capítulo VI, Normas e Ideologia : conceitos de classe, RJ, Editora Francisco Alves, 1976.

- Dicionário de Ciências Sociais, FGV/MEC, RJ, 1986. Verbetes sobre classe média, classe social, estamento, estratificação e status.

- Dicionário do Pensamento Marxista, Zahar, 1988. Verbetes sobre classe, classe dominante, classe operária, consciência de classe e luta de classe.

- Caros Amigos – ano IV, número 38, maio 2000, Editora Casa Amarela, pag. 20 – “Globalitarismo e cultura”

Trabalho de Introdução à Sociologia – ano 2002